16.7.17

Não é Fora Temer nem Fora Maia, é “Fora Meirelles, inimigo do povo” (Por Samuel Pinheiro)



O senhor Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank of Boston e durante vários anos presidente do Conselho da J&F (de Joesley), de onde saiu para ocupar o Ministério da Fazenda, procura, à frente de uma equipe de economistas de linha ultra neoliberal, implantar no Brasil, na Constituição e na legislação uma série de “reformas” para criar um ambiente favorável aos investidores, favorável ao que chamam de “Mercado”.

O senhor Henrique Meirelles já declarou, de público, que se o presidente Temer “sair” ele continua e todos os jornais repetem isto, com o apoio de economistas variados e empresários como o senhor Roberto Setúbal, presidente do Itaú.

Estas “reformas” são, na realidade, um verdadeiro retrocesso econômico e político e estão trazendo, e trarão, enorme sofrimento ao povo brasileiro e grande alegria ao “Mercado”.

Enquanto crucificam o povo brasileiro e em especial os mais pobres, os trabalhadores e os excluídos, o debate político fica centrado na corrupção, desviando a atenção da classe média e dos moralistas, em torno de uma verdadeira “novela” com heróis e bandidos.

Discute-se se Michel Temer levou ou não “contribuições pessoais” e se foram 500 mil ou 20 milhões, a prazo; se o senador Aécio Neves pediu uma propina ou um empréstimo (informal!!) de 2 milhões de reais; se a J&F corrompeu quem e quantos e ficaram livres de pena; se o senhor Joesley merecia o perdão; se Sergio Moro, juiz de primeira instancia, é ou não a principal autoridade judiciária do país, acima da Lei; se o ministro Marco Aurélio é justo; se o ministro Gilmar Mendes é imparcial etc. etc. etc.

O tema verdadeiramente importante é a tentativa de tomar o poder das classes hegemônicas brasileiras, aqueles que declararam ao Imposto de Renda ganharem mais de 160 salários mínimos por mês (cerca de 160 mil reais) e que são cerca de 70 mil pessoas e que constituem, em seu conjunto, aquela entidade mística que os jornais e analistas chamam de “Mercado”.

O “Mercado” contra o povo

De um lado, o “Mercado”:

– os empresários, promotores do Pato e financiadores do MBL; exceto aqueles que já se deram conta que Meirelles é contra a indústria;

– os rentistas;

– os grandes proprietários rurais (entre eles o senador e ministro Blairo Maggi);

– os grandes proprietários urbanos;

– os banqueiros (não os bancos) e seus lucros;

– os gestores de grandes empresas privadas, modestos ex-professores universitários;

– os proprietários dos meios de comunicação;

– os grandes executivos brasileiros de megaempresas multinacionais;

– os professores universitários, formados em universidades estrangeiras, em teorias próprias dos países desenvolvidos e que, mesmo lá, fracassam;

– os economistas e os jornalistas econômicos, empregados do Mercado.

De outro lado, o povo:

– os 53 milhões de brasileiros que recebem o Bolsa Família, isto é, cuja renda mensal é inferior a 182 reais;

– as dezenas de milhões que são isentos do imposto de renda por terem renda inferior a 2,5 mil reais por mês.

– os 61 milhões que estão inadimplentes, com seus crediários;

– os 14 milhões de desempregados;

– os 3 milhões de crianças fora da escola;

– os mais de 11 milhões de habitantes de favelas (hoje chamadas comunidades!!);

– os subempregados;

– os 47 milhões que ganham menos de um salário mínimo por um mês;

– os milhões sem remédios e sem hospital.

O programa econômico de Henrique Meirelles é o verdadeiro inimigo do povo! Não é a corrupção que distrai a atenção da verdadeira catástrofe que está sendo consolidada na legislação através de um Congresso que representa principalmente empresários, banqueiros, proprietários rurais, rentistas, etc.

O Mercado agora deseja colocar um presidente de imagem “limpa” porque, como disse o senhor Roberto Setúbal na Folha de S.Paulo, o importante são as reformas! Não importa quem as conduza!

É preciso lutar com todas as forças contra este programa de “retrocessos” disfarçados, cinicamente, de reformas a “favor” do povo!

Por Samuel Pinheiro - Embaixador aposentado. Secretário-Geral do Itamaraty de 2003 a 2009. Ministro para Assuntos Estratégicos de 2009 a 2010.

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