“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
– Millôr Fernandes
Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política]
consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer;
neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”.
Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje,
talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode
nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma
história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas
palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.
São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.
A história presente — um presente mirando o caos, sem
ensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo
sem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”.
Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização
social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a
soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América
do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade
autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no
século passado.