“Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos
também. Le mort saisit le vif!”.
— Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.
Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água,
alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo
chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da
terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a
Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.
Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de
povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia
arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados
referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de
brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma
nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima
consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de
Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não
cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado
interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América. Ora,
nossa "alma" não conhecia a
pátria.