4.8.17

O dia em que Luiz Melodia comeu Culhões.


Morreu Luiz e ficou triste a melodia no dia de hoje. É uma dor que não se sabe quando termina. E ela tem nome e cor. O nome é a música que com ela nos alegrou durante muito tempo.

Hoje, eu me lembrei de um momento ao lado do Melodia na cidade de Salvador na Bahia. O ano, acho, foi 1996 ou 1997. Eu estava passando uns dias por lá. Hilton Barbosa, um querido amigo, tinha um apartamento no Corredor da Vitória, lá no Sol Victoria Marina. Um aparte hotel interessante. Era a república dos Amigos e sempre que ia a cidade, Hilton liberava o apartamento, um kitnet.

Naquele dia me aparece por lá, Jorge Papapá acompanhado de Paulo Jorge. Dois dos mais brilhantes compositores da música baiana. Com composições gravadas por Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Chiclete, Timbalada. Enfim, dezenas de artistas já foram agraciados com suas poesias. E, mais ou menos, uma hora após estarem no AP, Papapá recebe uma ligação de Luiz Melodia. Ele informava que estava chegando a cidade a tarde e que faria um show naquele mesmo dia. Os dois eram grandes amigos.

Como em um transe artístico, Papapá decidiu que faríamos, digo faríamos, mas quem fez foi ele e Paulo, uma feijoada para Melodia. E a maior das coincidências foi que ele se hospedou no mesmo hotel. Ai já sabem, tudo ficou mais fácil de acontecer. Corremos ao supermercado do Porto da Barra, compramos tudo o que seria usado. Papapá teve a brilhante ideia de comprar Culhão de Boi como iguaria. E lá fomos nós atrás de panelas, já que tudo seria feito às escondidas no Kitnet. Lá era proibido ter fogão.

À tarde, antes de começar a aprontar a feijoada, o encontramos no restaurante do hotel. Ouvimos muitas histórias de Melodia e Papapá. Rimos muito com as loucuras que fizeram juntos. Tudo era festa. Em dado momento, ele se referiu a um de seus filhos, o Mahal. Disse que estava feliz, pois ele estava cantando em uma Banda de RAP. Eu, metido a entendido de música, ao ouvir aquilo e lembrando que era um ritmo americano se apossando da nossa cultura chegando pelo Rio de Janeiro disse, “o RAP Melodia, é o primo pobre do Repentista Nordestino”. Ele parou, olhou para mim e eu pensei, devia ter ficado calado. Ele caiu na gargalhada e avisou que iria falar para o filho sobre isso.

Combinamos que não iríamos ao show pois precisávamos colocar a feijoada no fogo. E assim foi feito. No AP, descobrimos que era perigoso ligar aquele fogão de uma boca. Então, o colocamos no pequeno corredor, entre a porta de entrada e o banheiro. Foi o único local seguro. Duas horas depois, ninguém aguentava com o cheiro dentro do apartamento e, não lembro quem foi o gênio, abriu a porta. Quinze minutos depois o gerente surge na porta e pergunta o que estava acontecendo. Perguntou porque quis, porque o cheiro, o fogão e aquele caldeirão grande já denunciava tudo. Ele disse que hóspedes ligaram, não reclamando, mas querendo saber onde tinha feijoada no hotel. Rimos juntos. Ele só pediu para fecharmos a porta novamente. E foi o que fizemos.

Já passava da meia noite quando Melodia ligou informando que tinha chegado. Subimos ao apartamento em que ele estava. Dez vezes maior que o nosso. Chegamos de caldeirão nas mãos. Paulo Jorge, que tinha comido quase todos os Culhões de Boi durante o cozimento, levou um prato com o que sobrou.

Ficamos lá com ele durante uma hora e meia. Nesse tempo, ele comeu a iguaria, quase sem querer, e se fartou, assim como todos nós, da feijoada feita com muito carinho e amizade para ele naquela noite, que ficou gravada em minha memória e que permanecerá. Histórias lindas e com amigos queridos, eu sempre deixo guardado em um cantinho, para sempre ir buscar quando for preciso.


Obrigado Papapá, por ter me proporcionado um dia com Melodia.

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