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| Foto: Dimas Roque |
Às sete da manhã do último dia do ano, a primeira tentação não foi o café, mas o vazio. O dedo polegar, movido por um reflexo condicionado mais forte que o desejo de dormir, deslizou sobre a tela do smartphone e encontrou apenas o papel de parede. Nenhum número vermelho de mensagens não lidas, nenhum alerta de rede social, nenhum resumo de notícias. Segundo um estudo do Instituto Delete, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o primeiro contato matinal com o celular acontece, em média, nos primeiros quinze minutos após o despertar, criando um ciclo de estímulo instantâneo. Na manhã silenciosa de 31 de dezembro de 2025, a ausência do hábito gerou uma palpitação física, uma sensação aguda de isolamento e a pergunta perturbadora, e se o mundo tivesse seguido sem mim?
O período da tarde foi marcado por uma inquietante
dualidade. A mente, livre do constante pingar de alertas, começou a divagar por
territórios esquecidos, a leitura de um livro físico, “Os Comunistas estão
Chegando” do amigo e companheiro de lutas, Emiliano José, cujas páginas faziam
barulho, a observação completa de uma leitura sem olhar para baixo, um momento
de tédio genuíno que não foi preenchido com passagem de páginas. No entanto, a
paz era cortada por súbitos espasmos de ansiedade, uma vontade quase muscular
de checar o aparelho que não vibrava. Era a síndrome do membro fantasma
digital, a certeza irracional de que algo importante, urgente e decisivo estava
acontecendo em alguma bolha virtual, e eu era o único ser humano à margem do
planeta a não saber.
Quando a noite de Réveillon chegou, o experimento revelou
seu lado mais cruel e, paradoxalmente, libertador. Em meio aos fogos e abraços,
a compulsão havia dado lugar a uma presença desconfortavelmente real. A mente
não estava dividida entre capturar a foto perfeita para o stories e viver o
momento, os olhos não comparavam a própria festa com as festas alheias do feed.
Um relatório global da consultoria GfK aponta que mais de sessenta por cento
dos usuários admitem usar o telefone durante encontros sociais, mesmo
considerando a atitude rude. Na noite de ontem, a rudeza foi ficar totalmente
ali, confrontado com a simples e não mediada experiência do tempo passando, dos
risos reais, das conversas que não precisavam ser performadas. Era como
assistir à própria vida em alta definição, sem a camada de filtros ou a cortina
de distrações paliativas.
Ao final das vinte e quatro horas, religar as notificações
foi como abrir a porta de um estádio lotado. Uma enxurrada de sons, vibrações e
luzes invadiu o silêncio conquistado, trazendo de volta o barulho digital do
mundo. A conclusão, longe de ser romântica, foi brutalmente prática, a
desconexão total não é uma utopia viável, mas um espelho que mostra o quanto
nossa atenção foi sequestrada. O verdadeiro escândalo não é o que se perde ao
desligar, mas o que se descobre que estava faltando o tempo todo, o controle
soberano sobre o próprio foco e a coragem de enfrentar o tédio fértil, que é o
berço de qualquer pensamento original. A experiência prova que, hoje, o ato
mais radical de rebeldia não é postar uma opinião forte, mas simplesmente
escolher não ouvir o barulho.

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