2.3.20

Tá na internet: O que nos acalenta a alma e o que deve ser feito


A cada avanço de Bolsonaro contra as liberdades democráticas  e as instituições que as representam cresce  na esquerda a angústia e floresce a ideia de deflagrar uma campanha “Fora Bolsonaro” e a defesa do impeachment.

Em 1968, boa parte da melhor e mais generosa juventude da esquerda  partiu para a luta armada contra a ditadura militar. Com o AI-5 os últimos espaços  de liberdade foram fechados. Sindicatos sob intervenção, entidades estudantis proscritas, mandatos parlamentares cassados, censura à imprensa e á produção cultural compunham o cenário de estreitamento das possibilidades de contraposição à ditadura por vias legais.

Razões morais para um levante armado não faltavam. Faltavam, porém, as condições políticas e o resultado foi um massacre.



Guardadas as diferenças entre os dois momentos, é necessário iluminar o cenário atual à luz da análise da relação de forças e das movimentações, na base da sociedade e na superestrutura politica. Nenhum presidente sofreu impeachment com 1/3 de apoio popular. Mesmo Michel Temer, cujo apoio popular tendia a zero, conseguiu sobreviver a dois processos de impeachment. 

Há duas hipóteses que poderão resultar no impeachment de Bolsonaro e ambas pressupõem que sua base de apoio seja muito reduzida em relação aos patamares atuais.

A primeira é um significativo desgaste do seu governo pelo aprofundamento da crise econômica, do desemprego, da degradação das condições materiais das classes trabalhadoras e pelo esvaziamento da retórica  de responsabilização de governos passados. Nessa hipótese,  a esquerda conseguindo transformar esse descontentamento em fortes demonstrações de massa,  pode levar à queda de Bolsonaro e à fragilização da sua sucessão pelo general Mourão.

A outra hipótese é a elite  brasileira  perceber que o governo Bolsonaro se tornou disfuncional aos seus interesses e resolva patrocinar um rearranjo por cima, capaz de estabilizar o regime e manter a agenda econômica. Foi o que ocorreu em 1992 no impeachment de Collor, que obviamente não foi derrubado por causa de um Fiat Elba nem pelos caras pintadas.

Deflagrar um processo de impeachment fora destas condições é centrar a disputa num confronto institucional sem chances de sucesso e que daria a Bolsonaro o discurso de defesa do seu mandato  contra os derrotados de 2018 e portanto , paradoxalmente, lhe daria uma bandeira democrática.
Bolsonaro anseia por isso.

Só o aprofundamento da crise econômica e a degradação crescente da situação  das classes trabalhadoras poderão dar as condições para uma mobilização efetiva que vá além das classes médias progressistas, único setor social que se mobiliza por bandeiras democráticas de forma abstrata. O conflito de Bolsonaro com o Congresso e o STF não fará ninguém sair do Jardim Angela ou  do Lote XV para uma manifestação.

Para a esquerda, como em 1968, não há atalhos. É a luta por direitos concretos, por salário, por transporte, por saúde, pela dignidade das mulheres, dos negros, dos LGBTs, das populações periféricas, que pode alterar a relação de forças. Será mais demorado e dará mais trabalho.

O “Fora Bolsonaro” e uma campanha pelo impeachement nos acalenta a alma. Mas nem sempre o que nos acalenta a alma é o que deve ser feito.

Por: José Luiz Fevereiro.

Tá na internet.

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