22.4.19

Eu via patetagem. Elas assistiam desenho animado



No ano de 1974 minha mãe resolveu ir a São Paulo, capital. Ela tinha adquirido um box no CEAPA – Centro de Abastecimentos de Paulo Afonso, que na verdade era o local onde dava início a feira grande da cidade. Naquele ano, eu e meus irmãos estávamos agoniando o juízo dela para comprar uma televisão. Era ano de copa do mundo e nós já não aguentávamos de ir ver TV na casa dos vizinhos. Tinha dia que éramos recebidos bem, outros com silêncio e muitos com o povo da casa de cara feia.

Minha mãe viajou de ônibus. E no seu retorno trouxe, para alegria de todos uma Telefunken de 20 polegadas, preto e branco. Nos reunimos todos na sala para às 16h ela ser ligada. Demorou porque alguém teve que vir colocar uma antena pé de galinha. E isso, demorava pra zorra. E na hora marcada, depois de falarmos a todo mundo que tínhamos uma televisão vinda de São Paulo, estávamos nós lá. E o técnico sobe, mexe, desce, mexe, sobe, desce... e nada da imagem aparecer. Tava tudo preto. Foi quando veio a frase:

- Acho que queimou alguma coisa nela. Disse aquele “fí de quenga”.

A decepção em meu rosto era tão grande que fui para o quarto e chorei. Estava morrendo de vergonha de todos que ali estavam para ver a “minha TV”. E para piorar a situação eu ouvi risos na calçada e gente dizendo:

- Essa aí não presta mais.

No dia seguinte meu pai chamou uma carroça de burro, colocou a bendita da TV nela e fomos todos, como se fosse uma romaria, até a loja do Gaguinho que concertava de tudo que fizesse barulho. Ao chegar lá, eu ainda me lembro, tinha um monte de outros aparelhos encima de umas mesas. Tava na cara que a nossa ia ficar por lá também. E adeus copa do mundo. Mas três dias depois ela estava de volta a casa e agora, funcionando.

Eu então com onze anos de idade gostava mesmo era dos filmes de bang-bang que passava. Assistimos à seleção jogar e ser eliminada.

No ano seguinte eu fui estudar no turno vespertino na Casa da Criança 2. Tive que me adaptar a programação. Todas as manhas eu assistia as patetagens na TV. A que eu mais gostava era da Pantera Cor de Rosa. Que na verdade era cinza escuro e cinza claro. Mas a imaginação corria solta naqueles tempos.

Na escola tinha uma professora, Dona Célia. E estava na mesma sala que eu, sua filha. Eu ficava mordido de raiva porque aquela garota sabia muito mais do que todos os outros dos assuntos dados para estudar.

- Deixa disso. Ela é filha da professora. Deve ser por isso que é mais inteligente do que nós. Sentenciou Roberto. Um amigo naquele ano.

Durante os intervalos das aulas, eu que levava meu exército de soldados e índios tirava tudo da bolsa e ia brincar no pequeno jardim que tinha dentro da sala. O local servia como entrada de ar. Depois de um tempo, a filha da professora e outras meninas foram se chegando. E eu fui gostando. E elas só queriam brincar com os meus brinquedos. E eu fui ouvindo elas. E ouvindo palavras que nunca tinha dito ou ouvindo antes. Eu fui achando interessante estar perto delas.

- Já falei com minha mãe. Na sexta-feira, vamos sair no intervalo e todos vamos lá pra casa para ver desenho animado.

“Ver o que?”, pensei eu. Eu que nunca tinha ouvido antes aquilo, fiquei louco para descobrir o que danado passava na televisão dela que não passava na de casa. Eram tantas perguntas na minha cabeça e uma única certeza. Eu tinha que ir e saber o que danado era aquilo.

Mas tinha um problema. Ninguém tinha me convidado. Como então ir? Decidi colar em Roberto na quinta-feira. Ele tinha sido convidado. E se um convidado convida mil, e o dono da festa coloca mil e um para fora. Eu só me importava chegar lá e descobrir o que era Desenho Animado que elas assistiam.

Fiquei tão grudado em meu amigo e nelas, que foi a primeira vez que percebi que elas olhavam atravessado para mim. Mesmo assim, eu estava decidido. E quando chegou a sexta-feira eu já estava pronto, fazia tempo. Quando terminou a segunda aula, logo que tocou a sineta e vi a turma ir saindo, eu colei junto. Vocês não imaginam o que é uma criança se sentir rejeita e mesmo assim seguir firme. A dor é maior do que ser rejeita e dar meia volta. Mais eu tinha um objetivo traçado. Descobrir o que eu desconhecia.

Chegando na casa. Todos entraram e eu e Roberto ficamos por últimos. Na sala, todas os espaços do sofá estavam ocupados. Tinham umas três almofadas no canto. Olhei e...

- Minha mãe não gosta que peguem as almofadas dela. Disse aquela garota chata.

Sentei ao lado do sofá com os olhos vidrados na TV. Espera o bendito do tal do desenho animado. Mas a programação era igual à que eu já tinha visto lá em casa.

- Vai começar, vai começar... informou a filha da professora.

Eu fiquei em silêncio. Olhando a TV que nem piscava os olhos. Vendo passar uma das histórias da pantera cor de rosa que, também, já tina visto na minha Telefunken. Depois de uns quatro, cinco minutos, eu comecei a olhar o rosto daquelas pessoas com sorrisos que mostravam seus dentes bem tratados. E do meu, não saia um único movimento que indicasse alegria ou felicidade. Esperei terminar aquela primeira parte do desenho e me levantei para anunciar:

- Pessoal, eu já vou. Se eu demorar minha mãe vai ficar preocupada e eu não avisei a ela que viria para cá.

Foi um tal de, “tá bom”, “ok”, “vá lá”, e quem nada dissesse alguma coisa, que eu acredito que estavam mesmo todos querendo se verem livres da minha presença naquele local.

Vim pela rua com uma raiva arretada de mim mesmo. Como eu não soube antes que patetagem e desenho animado eram a mesma coisa.

Chegando já perto de casa, fui chamando a todos os amigos e amigas de infância para irem até a minha casa para vermos juntos, desenho animado. A todos que eu falei, a cara mais próxima da realidade que me lembro foi a que bateu os ombros e deixou claro, sem falar nada, “o que danado era isso?”

Eu não me perdoou até hoje de ter que ter passado por tudo aquilo para descobrir que patetagem e desenho animado eram a mesma coisa. A única diferença era o grupo em que eu vivia. Mas que patetagem era bem melhor de se ver, isso era. A turma lá em casa deitava no chão da sala, sentava no sofá e colocava os pés nele. Mesmo levando broca de mãe. E quase toda tarde tinha cajuína com pão doce. Isso sim era bom de se viver.

Nenhum comentário:

Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial