Dimas Roque: A tragédia dos Silva

11.4.19

A tragédia dos Silva


"Eu não posso aceitar que meu pai esteja preso por causa de um apartamento que a gente nunca foi dono, nunca usou, nunca teve as chaves.Eu sei a verdade desta história, fui nesse apartamento com a minha mãe para ver se ela queria comprar.Se quisesse, poderia ter comprado, tinha condição para isso. O fato é esse. Mas aí inventaram uma mentira absurda e o prenderam.O que eles não entendem é que o Lula, além de ser um líder político, é o meu pai e dos meus irmãos., avô dos meus filhos e sobrinhos, o bisavô de Analua. Nós sofremos muito com isso. Ele tem 73 anos e está numa solitária por um crime que não cometeu. E nós acabamos presos com ele".

O depoimento, a Carta Capital, é do Fábio Luis Lula da Silva. O leitor há de se recordar do Lulinha. Bem antes da mamadeira de piroca, ainda no advento das fake news, o filho do ex-presidente Lula era "o dono da Friboi", mentira deslavada que por vezes incluía a posse da Oi, além de um avião de 50 milhões de dólares. "A perseguição ao meu pai se estende a nós. Perdemos minha mãe porque ela não aguentou isso. No passado, diziam que o Lula morava no Morumbi e não na nossa casa em São Bernardo. Éramos crianças, e crescemos ouvindo essas mentiras sobre nós, uma loucura. Eu mesmo já fui fui dono da Friboi, né? Hoje soa engraçado, mas aquilo foi um verdadeiro inferno... Meu pai nunca se preocupou em juntar dinheiro, tanto que mora na mesma casa desde os anos 80. Agora está preso por um crime que nunca cometeu. É revoltante, uma tristeza diária não convivermos com ele."
A tragédia da família Silva é literal e metafórica. Depois de um ano da prisão política do ex-presidente, a aniversariar neste domingo 7, os Lula da Silva comem o pãp que Sergio Moro amassou. O juíz tirou do páreo o candidato favorito à Presidência e, a reafirmar nossa vocação bananeira, ascendeu ao poder como ministro do governo que ajudou a eleger. Lula, por seu lado, cumpre pena de 12 anos e um mês numa solitária da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, encalacrado com sentenças e processos que fazem de Kafka literatura infantil.

Durante este período, o ex-presidente perdeu o irmão Vavá, morto aos 79 anos e seu neto Arthur, 7, vítima de infecção bacteriana. Filhos e noras fecharam-se em casa, assombrados por problemas financeiros e de saúde, colhidos pleo luto e o medo da violência física, acossados por buscas e apreensões. Metaforicamente, os Silva são também o povão, tamanha a presença do sobrenome na ase da pirâmide. No contexto atual, a tragédia de um é a tragédia do outro - ao aprisionar o Silva que estaria no topo, elegeram-se os Silva da base como alvo a ser abatido.

Desde a morte de dona Marisa, filho e noras de Lula ficaram traumatizados pelo infortúnio e a perseguição. "Quem acompanha de perto sabe a dificuldade que essas pessoas têm", diz Paulo Okamoto, ex-metalúrgico, responsável pelo Instituto Lula e um amigo do ex-presidente desde os tempos do sindicato em São Bernardo."Não conseguem trabalhar, não têm tranquilidade para estudar, os netos são hostilizados na escola. Ao condenar o Lula, condenaram a família. Deviam sair do Brasil, mas quem vai fazer isso com um pai na cadeia?"
Tampouco teriam condição para isso, já que atravessam sérias dificuldades financeiras.Estão com os negócios à míngua ou tecnicamente desempregados, à exceção da filha Lurian e do filho Luiz Cláudio, que acaba de assumir um posto de assessoria no gabinete do deputado estadual Emídio de Souza, do PT. Na terça-feira passada, Emídio foi instado a dar explicações à imprensa a respeito da sua escolha, e o Luiz precisou esquivar-se dos repórteres. Vai ganhar 6 mil reais por mês. "Que empresário dará emprego a esse pessoal", pergunta-se Okamoto.. "É sempre a mesma história: 'Mas os filhos do Lula são ricos, por que estão trabalhando aqui?"

O pedagogo Marcos, filho mais velho, cuida de um pequeno mercadinho e está tentando montar uma distribuidora de carvão. Depois da morte de dona Marisa, mudou-se com a família para o interior de São Paulo, disposto a refazer a vida. Mas, num episódio nunca esclarecido pelas autoridades, teve a nova casa invadida pela polícia sob o argumento de que buscavam desmantelar uma quadrilha de tráfico de drogas. Levaram computadores, devolvidos mais tarde. Nada foi encontrado.

Desde então, ele e a mulher lutam para superar o trauma, transformado em doença. Todos os outros filhos foram alvos de buscas e apreensões que reviraram imóveis, recolheram máquinas e documentos. O neto Arthur, filho de Sandro e Marlene, testemunhou a ação quando os policiais foram à casa da família. Não há notícia de que algo de suspeito tenha sido apanhado em qualquer uma das operações. O ipad de Arthur, levado do apartamento de Lula, jamais foi devolvido. Desse processo, Sandro herdou uma síndrome do pânico, hoje sob melhor controle.

Fábio Luis, o Lulinha, é um dos donos da PlayTV, um canal por assinaturas que veicula informações sobre música, filmes, animes e jogos de computador. Antes, firmara parceria com a Oi ara produção de conteúdo jovem para telefones celulares. De "sócio" da empresa nesse empreendimento foi catapultado pelos antipetistas a "dono da Oi".Fosse verdade, seria um grande case de fracasso, visto que o dono da Oi não consegue mais acesso a empresários capazes de veicular seus reclames no canal.

"Tudo o que se relaciona a Lula e ao PT ganhou a marca de uma grande organização criminosa", diz Okamoto. "A Receita passou a fiscalizar, em minúcia e aplicar sanções absurdas. O próprio Instituto, por exemplo, foi multado em 15 milhões de reais por desvio de função, mas nos último anos arrecadamos uma média de 5 milhões por ano. Como vamos pagar isso? Todas as empresas dos filhos do Lula foram investigadas por tráfico de influência. Se não encontram nada, acabam achando algum problema de gestão, muitas vezes erros que a gente comete sem nem saber que é proibido. Isso foi minando os negócios." O filho Luiz Cláudio, que tentou montar uma liga de futebol americano no Brasil, foi denunciado por tráfico de influência pela Operação Zelotes. É réu num processo e denunciado em outro."

Matéria completa na Revista Carta capital.

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