6.6.17

Tá na internet: Sobre o marista e se nada der certo.

Lembram da greve dos garis? Aqui no ABC durou 2 semanas, quando os motoristas de ônibus entram em greve ninguém consegue ir ao trabalho, mesmo aqueles que a vida deu certo e tem carro e uma vida de classe media alta. 

Sou historiador, trabalho com comunicação, ultimamente estou desempregado. Minha vida não tem dado certo a partir da visão que resume tudo a saúde financeira. Trabalhei duro numa fabrica para pagar meus estudos, dormia pouco, estudava no horário do almoço. Não por querer vencer na vida, mas por entender que se não me agarrasse naquela oportunidade eu não seria o primeiro da minha família a possuir um diploma de ensino superior. Assim foi minha vida, assim tem sido com muito esforço, dor e poucos momentos de recompensa.   

Não sei se vencerei na vida, não sei o que é vencer na vida, acho esse conceito vazio. Conheço gente que estuda no ITA e tem ideias racistas, da pra dizer que alguém com ideias racistas em pleno século XXI, é alguém que venceu na vida?

Estive no Peru e Bolívia vi índios que tinham pouco para comer - muitas vezes não tinham nada - e não sabiam sequer falar espanhol, diante da minha fome aparente, eles dividiram o pouco que tinham, se mostram poliglotas no idioma que nos humaniza: a solidariedade. Quando penso em alguém vencer na vida penso naquele menino indígena raquítico, dividindo comigo seu mingau de milho roxo, talvez sua única refeição do dia. Se você não aprendeu sobre solidariedade, empatia e compaixão, você não aprendeu nada, tornou-se apenas um boneco ou boneca articulado com nervos e carne, incapaz de promover coisas edificantes para a humanidade. 

Lembro também de uma visita a um assentamento do MST, da missa no domingo pela manhã, das cantigas de colheita e dos mais velhos contando para as crianças e os convidados, como foi a ocupação e a resistência, as prisões e o trâmite legal até conseguirem a posse da terra. Lembro de dona Vicentina, uma senhora paraibana que trabalhou na capital paulista desde a adolescência como domestica e sonhava com um pedaço de terra pra plantar seu roçado, dona Vicentina venceu na vida, tinha sua cabra leiteira, nós serviu doce de banana feito com bananas plantadas em seu quintal, dava pra ver o brilho nos olhos dela, dava pra sentir o desconforto quando contou sobre sua vida como doméstica e sua alegria quando disse: isso aqui é nosso, lutamos e conseguimos.

Filhotes de canalhas não vencem na vida, racistas não vencem na vida, elitistas não vencem na vida. Vencem na vida quem todos os dias resiste, o gari que limpa a cidade, a moça que atende na recepção mesmo diante do mau humor de gente idiota, os milhares de peões retirantes que erguem prédios com suas próprias mãos. O colégio marista fracassou, os pais fracassaram, não produziram mesmo com educação privada seres humanos, apenas réplicas, incapazes de amor, solidariedade ou empatia. 

A natureza lhes deu crianças, vocês devolveram aprendizes de vermes, com todo o kit danoso a humanidade. Ainda prefiro o menino indígena que apelidei de Sancho, ele era raquítico, não sabia espanhol, mas enquanto dividia seu mingau comigo, me olhava com a alegria de quem pode ajudar, isso o colégio marista ou os pais daqueles moleques não conseguirão ensinar nunca.

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