7.6.17

UM BALDE DE ÁGUA FRIA. (Por Professora Alessandra Vieira)


Os nazistas mantinham os judeus em fome constante. Assim, os judeus se ocupavam apenas de uma única tarefa durante o dia todo: procurar alimento, sobreviver, matar a fome imediata e urgente. Não tinham tempo e nem energia para organizar conspirações, rebeliões e planos de fuga. A vida se resumia a uma luta individualista, egoísta e solitária pela mera subsistência.
De modo análogo, a maioria dos brasileiros se ocupa apenas da sobrevivência e da dura conquista do básico: moradia, comida, escola e saúde. E mesmo os poucos que conseguem manter esse básico (especialmente a classe média) não têm tempo para se preocupar com mais nada: acordam muito cedo, trabalham mais de 8 horas, retornam exaustos, assistem o Jornal Nacional e vão dormir para reiniciar a labuta no dia seguinte. A vida se resume a uma luta individualista, egoísta e solitária pela manutenção do básico. E as TVs, os jornais e revistas reforçam e martelam diariamente essa ideologia do individualismo e do trabalho maquinal: pense apenas em você; invista apenas em você; é cada um por si; não reclame, trabalhe; não seja vagabundo, trabalhe até o fim da vida; sempre foi e sempre será assim; com esforço você conseguirá vencer; a meritocracia fará você vencer; os sindicatos não servem pra nada; a política não presta; o coletivismo é um sonho; o socialismo morreu; os empresários vão melhorar sua vida; o capitalismo selvagem e sem grilhões é o futuro. E tudo isso é mostrado ao público através de um lustro acadêmico e profissional. A propaganda é tão intensa e tão bem feita que poucos conseguem perceber a grande farsa que existe por trás dessa forma de pensar.
Diante desse cenário, a grande maioria dos brasileiros pouco se importa se o país está passando por um golpe de estado, se os direitos humanos já foram pro vinagre, se não existe mais democracia, se a constituição foi rasgada, se existe prisão política, se haverá uma ditadura militar, se os pobres da cracolância estão sendo tratados como lixo. Para quem a sobrevivência é a única preocupação, essas questões parecem supérfluas, um luxo desnecessário que só se justifica em países ricos. Tudo isso se apresenta como uma névoa de acontecimentos, um falatório confuso, um ruído de fundo na vida cinzenta e maquinal dos trabalhadores.
Querer que essa multidão de autômatos se levante para lutar pela democracia é ser totalmente irrealista, romântico e ingênuo. A grande massa de trabalhadores sem sindicatos, desorganizados e desinformados, apenas perceberão que algo mudou no país quando forem terceirizados, quando não mais tiverem direito a férias e décimo terceiro, quando a carga de trabalho aumentar e o salário diminuir, quando descobrirem que não irão mais se aposentar. A grande massa de trabalhadores não aprende pela informação (pois a única informação que possui vem de seus algozes), aprende pela prática do dia-a-dia. Quando a grande massa de trabalhadores descobrir que tudo mudou, já será tarde demais para mudar.


Por Professora Alessandra Vieira.

12 comentários:

Richard Faulhaber Trent disse...

Muito bom texto !!! Nossa realidade, nua e crua ...

Unknown disse...

Parabéns pelo excelente artigo. Triste e cruel realidade!

Unknown disse...

Muito, muito triste!
Deixamos isso acontecer, não me conformo!

Mao Ferreira disse...

Gostei muito do texto, concordo absolutamente com seu conteúdo, por esta razão inclusive não assisto TV há quase trinta anos, mas gostaria de mais informações sobre a autora do texto. A maior parte de informações do Google trata-se de uma professora de curso preparatório para concursos. É está a pessoa? Infelizmente autoria em textos da internet é sempre uma coisa complicada.

Obrigado.

Binóculo Periférico disse...

De onde esse texto foi retirado?

Tamara disse...

É assustador q uma professora tenha escrito um texto tão equivocado. Para defender uma tese sobre a sociedade brasileira, a qual não entro no mérito, partiu de uma premissa histórica totalmente inverídica. Os nazistas não mantinham os judeus em fome constante, eles exterminavam os judeus. Se ela, talvez, queira se referir aos guetos, onde os judeus foram confinados antes de enviados aos campos de extermínio, não há forma mais deturpada de descrevê-los do q afirmando q a vida alí era uma luta individualista, egoísta e solitária. A característica mais marcante do povo judeu, uma minoria frequentemente discriminada e atacada na História, é sua união e capacidade de apoiar seus irmãos nos momentos difíceis. É essa união q o fez sobreviver por quase 7 mil anos. Portanto, para uma analogia de egoísmo, o povo judeu, certamente, é a escolha mais absurda que essa professora poderia fazer.

Tamara disse...

Ops, digitei errado no texto acima, são quase 6 mil anos de existência do povo judeu e não 7 mil...

Angelica Velhote disse...

Acho que talvez vc esteja equivocada, antes de serem exterminados, judeus eram confinados e obrigados a realizarem trabalhos forcados sim! E passaram anos assim, muitos filmes propagandistas foram profuzidos pelos próprios nazistas, tentavam passar a imagem de que eram bem cuidados, maquiavam e criavam cenários verdadeiramente familiares. Isso tudo para esconder o verdadeiro horror que ali se empregava..
é importante conhecer profundamente sobre uma hiatória antes de refutá-la
Abraço

MARIO FONTES disse...

MUITO BOM VOU COPIAR E PASSAR.

it disse...

Parabéns Tâmara pela sua lucidez e conhecimento. O texto da professora me pareceu totalmente fora de contexto, um texto infeliz!

Alexandre M. disse...

Os Judeus, no inicio da guerra, eram usados como escravos (lembra do filme A Lista de Schindler) e tampouco eram sumariamente executados, tando que milhres foram libertafos e conseguiram contar a historia (Hanna Arendt). Ela usou uma metáfora e Hermenêutica, ferramentas muito utilizadas no meio acadêmico ou entre filosofos. Nada de errado no texto.

L.J disse...

Texto excepcional. Propõe uma resposta de forma arguta e muito bem fundamentada àquela nossa inquietante pergunta: "Por que não reagimos?".

E o irônico é que vários comentários só corroboram os argumentos do texto. Vem um monte de hienas sabidas deitar falação e críticas infantis sobre a analogia com os judeus durante o holocausto nazista. Ora, há documentação farta a esse respeito, para muito além de reportagens televisivas superficiais, filmes "roliudianos" ou revistas simplórias mal intencionadas. É claro que milhares de judeus penaram bastante nos trabalhos forçados em campos de concentração, sobrevivendo algum tempo nas condições mais abjetas, desumanas e miseráveis. Nem todos, portanto, foram mortos imediatamente após serem capturados. Quanto ao individualismo dos sobreviventes, também está corretíssimo. Não se trata de macular a conhecida e milenar solidariedade dos judeus entre eles. O fato é que, em condições radicalmente adversas, essa solidariedade, por óbvio, tinha que se limitar, quando muito, aos companheiros de infortúnio nas masmorras e cercas dos campos de concentração. Não havia como ocupar-se de outros que não estivessem muito próximos. É nesse sentido que deve ser interpretado o "egoismo" tratado no texto. Aliás, submeter prisioneiros às condições de meramente lutar por suas necessidades fisiológicas é tática antiga e muito praticada por povos beligerantes e genocidas. Chega a ser ridículo precisar esclarecer algo tão óbvio. Enfim, sobre tanta bobagem presente nos comentários, só pedindo socorro ao fantástico Umberto Eco: "a internet deu voz aos imbecis."
Enquanto isso, muitos passam ao largo do que mais importa, daquilo que é de fato o tema em comento: refletir sobre nossa passividade a partir da genial análise do texto.
Acho (e somente acho) que lá no fundo o que esses comentadores sentem é vergonha de sua própria ignorância e inveja da autora do texto, pela sua capacidade em nos deixar todos nus.
Seu texto, professora, precisa ser conhecido com urgência por mais e mais brasileiros. Divulguemos.