Trata-se de uma guerra diferenciada, mais sofisticada do que
os modelos conhecidos e vividos, e mais complexa, em face das experiências
passadas. Ela não se restringe ao teatro das operações bélicas no sentido
estrito — por exemplo, as agressões dos EUA e do Estado sionista de Israel,
que, repetindo o assalto às Colinas de Golan (em 1967), anuncia a ocupação e
posse, ou seja, a rapina de algo como 10% do território do Líbano, que não
cessa de atacar, matando civis, destruindo o país, sob o pretexto (a prepotência
nem sempre se empenha em construir pretextos, como a humanidade aprendeu com as
lições da Alemanha hitlerista) de estar combatendo o Hezbolah.
A guerra que neste momento tem seu epicentro no Golfo
começou, do ponto de vista bélico, em Gaza; mas pode ser definida como uma
guerra continuada, porquanto o mundo não conheceu a paz nesses 81 anos que nos
separam do Armistício, e desde então os EUA não deixaram de guerrear. É uma
guerra imperialista — como tantas iniciadas por Washington (jamais esquecer a
invasão do Vietnã) —, mas que não se trava entre potências capitalistas
avançadas, nem visa a disputa de mercado.
Embora a Casa Branca tenha seus canhões e seus marines momentaneamente voltados para o petróleo do Oriente e já se tenha apossado das reservas da Venezuela, o eixo central é a disputa da hegemonia internacional que os EUA, a unipotência de hoje, veem, com justificadas razões, ameaçada pela China, até aqui silente, enquanto, caminhando para além da Rota da Seda, expande sua presença em todos os continentes.
O conflito está entre nós, na América do Sul e no Brasil. Sofrem nossas exportações para o Oriente; a economia padece com a alta dos fertilizantes e dos combustíveis, cujos efeitos são ainda mais sentidos em vista da privatização de refinarias e venda da BR Distribuidora, parte do projeto de desmonte do governo anterior. Se já não se conta com a queda da Selic (sem o que o país não se desenvolve), o tal mercado estima a queda do PIB este ano. A Argentina, como o Paraguai, assegurou aos EUA o ingresso de tropas para exercícios militares (há sempre um começo) e participação na base naval que está sendo construída em Ushuaia (a cidade mais austral do país), porta de entrada para a Antártica. Tudo isso nos diz respeito.
Esta guerra, porém, contém um componente anacrônico, que
lembra o neocolonialismo, quando logra submeter aos seus interesses países
periféricos no sistema capitalista; antes independentes, são reduzidos à
condição de protetorado-colônia, espécie à espera de definição pela ciência
política.
Caso que não é, tão só, o da Venezuela, pois já é o de quase todo o Caribe, para além dos condicionamentos que secularmente amaldiçoam o México. Ali, naquela região nevrálgica, a fronteira norte do grande “quintal”, os EUA promovem — criminosamente, por óbvio — a sufocação de Cuba, pela fome de sua gente, como preâmbulo para a incorporação ao império, já aventada por Trump. Se lograrem êxito, Cuba voltará a ser o que era antes da revolução: uma cloaca, um cassino para a classe média do sul dos EUA, balneário para o repouso de gangsters aposentados.
A história comum de nossos países reproduz a preeminência dos interesses dos EUA, sustentada por uma sucessão de golpes de Estado que conheceu quase todo o continente e esteve presente entre nós em variados momentos. Convém não esquecer.
Sobre os escombros de Gaza e os milhares e milhares de cadáveres palestinos abre-se o espaço para a Riviera da família Trump, sua Lagoa ao mar oriental, levantada sobre a falência do direito internacional, a afronta à Carta das Nações Unidas e o auxílio prestimoso do sionismo, anunciando um portfólio de negócios a ser explorado mundo afora pela partilha entre o grande capital e o complexo industrial-militar, que carece da guerra para sobreviver.
Não é o começo, nem sugere um fim.
A guerra que nos toca hoje, está, pela diversidade de meios, expandida em face do conceito canônico e compreende um número sem conta de intervenções da mais variada forma, que completam um rol que vai muito além da guerra convencional, substituída por guerras irregulares, apoio a insurgências, sabotagens de um modo geral, ciberataques, desinformação, pressão econômica e sanções, operações psicológicas e o lawfare, ou seja, o uso do sistema jurídico como arma política, expediente bem conhecido entre nós, pois não podemos esquecer o que foi a Lava Jato, cujos efeitos ainda não foram de todo superados.
Neste caleidoscópio, o tarifaço de Trump é apenas uma dessas artes, ao lado das pressões e das sanções econômicas, como as que se abatem notadamente sobre a Rússia e o Irã. Estas são armas claras, como a guerra militar convencional, expostas à luz do dia; mas há as que passam despercebidas do grande público: as guerras irregulares, que se fazem mediante a mobilização, por exemplo, de milícias ou contingentes mercenários (como vimos na guerra civil da Síria e da Líbia pós-2011) e, notadamente, a espionagem e a sabotagem de que permanentemente se valem as grandes potências, e no que se destacam os serviços secretos de EUA e Israel, de uma forma ou de outra herdeiros da experiência do serviço secreto inglês em seus momentos mais ignominiosos.
Cuidemos de apenas dois crimes. Aquele que mais diz respeito à tragédia iraniana é a deposição, em 1953, do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, liderada pelo serviço secreto britânico (MI6), de mãos dadas com a CIA. Ficou conhecida como Operation Ajax. Era a resposta das grandes potências à nacionalização do petróleo iraniano (sempre ele) até então, controlado pela Anglo-Iranian Oil Company.
De igual relevância é a deposição e assassinato, em 1961, do líder congolês Patrice Lumumba, acusado de simpatias pela URSS, numa operação que reuniu o serviço secreto da Bélgica (ex-potência colonial) e a CIA. No fundo, havia a disputa por recursos estratégicos, como urânio e cobre. Israel, como se vê, não inova com os seguidos assassinatos de líderes e cientistas iranianos.
A isto tudo chama-se guerra híbrida, definida por Frank Hoffman (Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, 2007) como o uso combinado e coordenado de instrumentos militares e não militares, tecnológicos, jurídicos, informacionais e psicológicos para enfraquecer o adversário sem necessariamente recorrer a uma guerra convencional declarada. Aqui não há tanques nem drones, mas há impacto direto na soberania política e na manipulação da consciência coletiva. A invasão se opera por outros meios e, mais do que nunca, “a guerra é a continuação da política por outros meios” (Clausewitz).
A guerra híbrida é ainda mais contundente quando as novas tecnologias abrem espaço livre para a manipulação ideológica. Refiro-me aos bots, às fake news e à manipulação algorítmica; mas a espécie mais insidiosa, ao lado das pressões psicológicas, certamente são os ciberataques (exemplar, a este respeito, é o caso Stuxnet, descoberto em 2010, quando os EUA e Israel, mediante a introdução de vírus tipo worms, sabotaram centrífugas nucleares do Irã) e a desinformação, mediante o controle dos meios de comunicação e da manifestação cultural como um todo, no que têm reinado os EUA, universalizando sua visão de mundo (embalagem de seus interesses), a partir do autoconceito de império destinado a reinar, material e espiritualmente, sobre os povos.
É a doutrina do destino manifesto, que se resume na crença falaciosa de que sua gente foi ungida por Deus para comandar o mundo. Esta maluquice foi tomada ao pé da letra por Donald Trump e sua curruela.
Nesse cenário inquietante, para dizer o mínimo, o Brasil
segue à míngua de defesa, seja para a guerra convencional, seja para a híbrida,
na qual atuam, além dos conhecidos atores internos (políticos, econômicos,
religiosos, midiáticos), as chamadas big techs, sobre as quais não tem qualquer
controle.
Deve ser nossa prioridade o desenvolvimento de mecanismos tecnológicos de defesa, mas o ponto fulcral é a coesão social, sem a qual nenhuma estratégia de dissuasão híbrida funciona. Dela sempre nos descuramos, mas jamais no nível em que nos encontramos, no limiar de um processo político — as eleições de outubro —, certamente o mais agônico desde a redemocratização, em face da ascensão da extrema-direita brasileira, na qual investe a internacional neofascista que se espalha pelo mundo a partir da Casa Branca.
Resta esperar que governo e partidos do campo progressista encontrem engenho e arte para avançar na organização e mobilização popular. Ponto de partida incontornável, nesta quadra histórica, é a denúncia do imperialismo, que jamais se expôs como agora, sem disfarces.
***
O alerta e a esfinge – As pesquisas eleitorais dando conta de um crescimento da rejeição ao presidente Lula, e de uma possível dianteira do pré-candidato fascista em projeções de segundo turno, não devem instalar o derrotismo na esquerda e no campo democrático como um todo, mas precisam servir de alerta. Não há dúvida de que, para assegurar a necessária vitória, a candidatura governista precisará dialogar com o eleitorado conservador, e com as pautas que ele tende a priorizar. É questionável, no entanto, que o “populismo penal” festejado pelos quadros mais rebaixados da centro-esquerda seja um caminho a seguir. E há uma esfinge a ser decifrada sem demora: por que o eleitorado jovem, da faixa entre 16 e 24 anos (cerca de 13% do total de votantes), rejeita massivamente o presidente Lula, preferindo um adversário desqualificado e de extensa ficha corrida?
Ainda Cuba – A população de Cuba gira em torno de 9 milhões,
o que corresponde, ensina-me o bravo
frei Beto, a um bairro de Pekin. E a China não se abala em seu socorro!
Por: Roberto Amaral.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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