23.12.21

Sequestraram o Clima e Natal

Quando eu ainda era uma criança, e isto já faz um bom tempo, e ia chegando o período de Natal eu começa a criar algumas expectativas. Uma delas era que no dia 24 de dezembro a tradição era passar na casa dos meus padrinhos para pedir a benção. Na verdade era a desculpa para ganhar de presente um valor em dinheiro para ser gasto na festa que sempre acontecia na Rua da Frente onde ficavam barracas que sempre tocavam as novas músicas de Roberto Carlos e onde se podia comprar Beira Seca e uma garrafinha de suco de groselha. Era a realização completa, uma felicidade que até hoje me emociono só de lembrar.

Outra coisa que eu fiz durante muito tempo foi pedir a Papai Noel que fizesse cair neve em Paulo Afonso, cidade onde nasci no sertão da Bahia. Eu nunca me conformei de ver pela televisão neve em outras cidades e na minha não. E ficava por horas conversando com ele e cobrando que o milagre acontecesse. Até hoje eu espero por este momento.

Mas o mês de dezembro sempre me trouxe o chamado Clima de Natal, que é quando de um momento para outro nosso corpo é invadido por sentimentos de bondades e parece que conseguimos ver todas as dificuldades dos outros e por isto há um impulso de retribuir, distribuindo aos mais carentes um pouco do que ganhamos e acumulamos durante o ano.

Surge também a vontade de declarar a amigos e amigas, parentes e aderentes o amor que sentimos por cada um deles. Sim, este era o clima do Natal que eu vivia até pouco tempo. Mas até isso mudou em nossas vidas. As cidades já não ornamentam suas ruas com luzes e adereços. O Papai Noel, aquele gorducho de pança avantajada, quando aparece, é magrinho, esquelético e já nem pronuncia o “Ho, Ho, Ho” para anunciar a sua chegada. Está mudando tudo!

E para piorar, surgiu um tipo de pais que só Jesus na causa. Esse grupo resolveu que seus filhos devem saber desde cedo que o Papai Noel não existe. Diz essa turma que é para a criança não crescer traumatizada. E eu fico imaginando como esses filhos, quando grandes, descobrirem que aquele barbudo vestido de vermelho na noite de Natal ainda viaja pelo mundo distribuindo presentes a todos e que lhe roubaram o clima e o direito de sonhar.

Acabei de descobrir que ainda não escrevi a minha cartinha de natal este ano para o Papai Noel. Desculpa deixar vocês neste momento, mas vou fazer a minha logo. Vai que Papai Noel passa e não recebe o meu pedido. Não posso ficar sem o meu presente de natal este ano.

 

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