29.4.20

Quase toda a riqueza dos muito ricos vem de herança


A Revista Debates acabou de publicar uma pesquisa minha em que uso um paper do Piketty e dados da Receita Federal para calcular o % da riqueza privada de cada faixa de renda dos brasileiros que é herdado.

Spoiler: quase toda a riqueza dos muito ricos vem de herança

Link nos comentários e algumas conclusões abaixo:

1. Quando li Capital no Século XXI, do Piketty, vi que ele calculava o % da riqueza francesa que vinha de heranças. Procurei o dado para o Brasil para citar e não achei. Aí fui estudar sobre como seria possível calculá-lo. Vi que havia gente fazendo isso, mas nada publicado.

2. Queria ter esse dado porque existe um mito de que a riqueza é algo que você pode conquistar. Se pudermos mostrar que a maioria da riqueza na verdade é herdada no Brasil, esse mito é posto em xeque. Se pudesse mostrar por faixa de renda, melhor.


3. Acabei achando um paper*, de três autores (Piketty, Garbinti e Alvaredo), que discute três métodos para calcular o percentual da riqueza privada que provém de heranças. Percebi que dados públicos, principalmente os da RFB, podiam, com algum tratamento, ser usados nos três.

4. A diferença do primeiro (M) para o segundo (KS) é só saber se o herdeiro reinveste a renda produzida pela herança ou se ele a consome. Já o terceiro método (AGP, dos próprios autores) usa fluxo de herança, taxa de poupança e percentual da renda total que vem do capital.

5. Usei os relatórios da Receita para os anos de 2015 e 2016. Como os dados da RFB são por faixa da renda, pude fazer estimativas que levassem em conta cada faixa individualmente.

6. Outra análise interessante é comparar os métodos M e KS: como o primeiro supõe que toda a renda produzida pela herança é consumida e o segundo, que toda ela é investida, é possível supor que o % real fica entre uma e outra. Além disso, para faixas de renda em que o % encontrado pelo método KS é superior a 100%, é possível concluir que pelo menos uma parte da renda da herança é consumida. Isso acontece a partir da faixa que vai de 40-60 salários mínimos. Para rendas extremas (> 320 salários), pelo menos 65% da riqueza é herdada, mas provavlemente mais, já que esse número suporia que os muito ricos não reinvestem nem um centavo da renda que suas heranças produzem.

9. Uma conclusão que podemos tirar daí - além de ter os dados, que acho que não existiam nesse formato - é que a classe alta brasileira é MUITO DEPENDENTE DE HERANÇA. Existem ricos que ganham dinheiro trabalhando, mas o grosso de sua riqueza passa de geração para geração. Para fazer parte dessa classe, não tem muito jeito além de nascer na família certa.

10. Devo usar as conclusões do artigo na minha dissertação - que é sobre herança, mas sob perspectivas éticas - e espero que ele seja útil a outros pesquisadores.

*Alvaredo, F., Garbinti, B., & Piketty, T. (2017). On the share of inheritance in aggregate wealth: Europe and the USA, 1900–2010. Economica, 84(334), 239-260.

Agradeço ao Prof. Alexandre Freitas Barbosa, em cuja disciplina de pós essa pesquisa foi concebida.

Por: Artur Prado.

Tá na internet.

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