Dimas Roque: PT 40 anos: os desafios da reinvenção (Por Paulo Pimenta)

14.9.19

PT 40 anos: os desafios da reinvenção (Por Paulo Pimenta)


Elementos para um debate 

Na antevéspera de completar 40 anos, preparando-se para realizar seu 7o Congresso, o Partido dos Trabalhadores não pode se esquivar – se deseja seguir sua vocação transformadora – de responder a algumas questões que indicarão sua capacidade histórica para se reafirmar como intérprete dos interesses e das expectativas da parcela majoritária dos brasileiros comprometidos com a democracia.  Mais ainda, a parcela dos brasileiros comprometidos com uma “sociedade sem explorados e sem exploradores” – como está impresso no seu manifesto de fundação – ou renuncia a esse propósito e dá por encerrado o papel que as lutas mais avançadas dos trabalhadores, um dia, lhe atribuiram.

1. A questão da democracia interna – Para um Partido que se orgulha de ter nascido radicalmente democrático, negando ao mesmo tempo, o fazer político oligárquico herdado da sociedade escravocrata e a cultura política autoritária, stalinista, da esquerda que o precedeu, o PT não responde hoje à necessária garantia de participação de suas bases. Elas se veem impedidas há muitos anos de tomar parte nos fóruns das decisões que realmente importam para a vida do Partido e do País.

Esse bloqueio produziu ceticismo naqueles que se engajaram na construção do partido e resultou na erosão da estrutura inicial dos núcleos por local de trabalho, de moradia ou tema. Eles, os núcleos, eram não apenas um fator que diferenciava o PT dos demais partidos do sistema político brasileiro e imprimiam, portanto, uma marca de caráter. Mais que isso, ainda que em parte, eles eram responsáveis pelo convívio dos militantes petistas com os setores populares mais pobres da sociedade e retiravam dessa  relação quotidiana a vitalidade que o Partido exibiu durante os primeiros anos. Não soubemos sistematizar adequadamente essa rica experiência de participação política democrática, capilar e traduzi-la em mecanismos permanentes de participação na estrutura do Partido. O PT está diante do desafio de encontrar com urgência e sem tergiversação os caminhos para reproduzir aquela experiência fecunda de participação da militância, pelos meios que a revolução digital disponibiliza hoje para a sociedade, a exemplo do que já realizam os partidos da esquerda europeia, para fazer frente ao avassalador avanço da onda conservadora que soube se servir desses instrumentos com sagacidade, qualificação técnica e a partir do seu uso impor a opção pelas políticas econômicas neoliberais e derrotar em diferentes lugares do mundo as posições defendidas pela esquerda.
   
2. A questão da transparência financeira do Partido (Por um Orçamento Participativo interno no PT) Ao por os pés na institucionalidade a partir de 1982 quando participou do primeiro processo eleitoral o Partido dos Trabalhadores começou a definir sua estratégia para chegar ao poder. O PT se constituía, não sem dificuldades, numa nova força política ancorada pelas mobilizações populares e buscava ganhar espaço nas representações parlamentares e nos executivos municipais e estaduais.

O Diretório Nacional instituiu a contribuição aos cofres do Partido de 30% dos salários dos mandatados, parlamentares ou executivos. Essa contribuição veio somar-se àquela dos militantes e filiados na formação da receita destinada a sustentar a vida diária do partido, ao lado de outras inciativas: campanhas de doações, rifas, bingos, feijoadas, churrascos, galinhadas, de acordo com a região, pequenas oficinas custeadas pelos próprios militantes, equipadas para confeccionar estrelinhas ou imprimir em serigrafia as camisetas e bandeiras que seriam exibidas nas próximas manifestações e eventos. Contribuíam desse modo para financiar atividades específicas do quotidiano dos núcleos e dos diretórios. Inspirava-se, o PT, na tradição dos partidos socialistas e comunistas ou organizações anarquistas que o precederam.

Fomos reticentes, desde o início, em debater de forma politizada e sistemática, a importância da sustentação financeira do Partido como condição para assegurar sua independência política nas disputas que viria a travar com os partidos convencionais. Com esse perfil ingênuo, o PT estava pondo o pé no “mercado eleitoral”  moderno que se estabelecia no país, financiado pelo Estado ou pelos setores privados que monopolizavam o acesso aos recursos do orçamento público: os vencedores profissionais das licitações, os lobbys repassadores desses recursos durante as campanhas eleitorais, que seriam cobrados futuramente em favores, dos vencedores do pleito. Uma máquina modelada para funcionar à perfeição na produção e reprodução dos mandatos dos partidos conservadores que constituem as maiorias no Congresso.

Aprendemos rápido. Num tempo relativamente curto alguns mandatos do Partido dos Trabalhadores já figuravam na folha de pagamento de empresas interessadas em vender equipamentos e serviços às prefeituras e governos estaduais. Empresas que investiam – e investem – nos processos eleitorais com os olhos postos nos possíveis vencedores dos pleitos futuros. Afinal, assim funcionava e segue funcionando a ciranda institucional conservadora onde o PT se inseriu.

A partir de meados dos anos 90 as receitas foram reforçadas com a instituição do Fundo Partidário. Um avanço democrático, sem dúvida. Em parte uma vitória do PT, que ao lado de outros partidos insistiam numa estrutura mais transparente e republicana para a dotação de recursos públicos para o financiamento dos processos eleitorais, o que em tese permitiria maior equilíbrio entre as forças políticas que competiam no “mercado eleitoral”. Além disso a instituição e manutenção dos mecanismos de educação e formação política de cada partido: as Fundações, que passaram a receber 20% da dotação destinada ao partido respectivo para custear as atividades de organização da memória, formação política e divulgação dos programas e propostas de cada partido para o país.

A gestão desses recursos sem uma regulamentação precisa – exceto no que toca aos 20% destinados especificamente às Fundações – gerou áreas de sombra e abriu espaço para uma condução viciada pelo arbítrio – no nosso caso – das correntes majoritárias em detrimento das correntes minoritárias, da transparência, da distribuição, pelo menos equânime, já não digo igualitária, desses recursos e, em última análise, da democracia interna.

Não há como fugir a uma evidência: o Partido que formulou a experiência democrática de gestão dos orçamentos quando governou em algumas regiões do país, por meio da convocação da sociedade para as assembleias do “Orçamento Participativo” deve experimentar utilizá-la internamente na condução de suas finanças.

A falta de transparência na gestão das contas partidárias gerou, ao longo dos anos, muitas distorções.  Uma das consequências delas foi o surgimento e cristalização de uma burocracia profissional nas estruturas do partido, infensa às eventuais modificações – ainda que leves – na composição política das instâncias diretivas.

3. A burocratização das estruturas do Partido – Não há registro de experiência de construção partidária na história dos movimentos de trabalhadores de algum Partido, seja na tradição da III Internacional, seja na tradição socialdemocrata, que não tenha vivido o desafio da burocratização de suas instâncias. A diferença entre eles se nota na forma como encarou – ou deixou de encarar – o problema.

Ao longo dos anos o PT se converteu numa considerável e competente máquina concentrada em administrar os processos eleitorais que se repetem a cada dois anos, nos diferentes níveis da federação. Tarefa que desempenhou com reconhecido êxito. Confirmam essa constatação as vitórias sucessivas de 2002, 2006, 2010, e 2014 nas eleições em âmbito nacional.

Quando a direita liberal, liderada pelo PSDB, a partir da quarta derrota consecutiva, em 2014, cansou de apanhar dentro das regras da Carta de 1988 e se moveu para a aventura golpista, utilizando-se do Ministério Público, da construção de uma maioria parlamentar atraindo as bancadas que até o dia anterior eram bases do governo petista, somados a setores importantes do judiciário, a estrutura do PT, como força política, foi posta em cheque.

E, em uma palavra: ruiu. Ao priorizar a luta parlamentar – sem dúvida necessária na disputa de classes no mundo contemporâneo – deixara de ser um partido com capacidade de mobilização popular e, ainda que residual, de organização sindical classista, capaz de convocar as ruas, para se converter em um partido de opinião ou de representação. Revelamos baixa capacidade de apresentar nas ruas, com o volume e a força adequada, uma reação em defesa do governo legitimamente eleito de Dilma Rousseff. O PT se tornara uma força conservadora, inserida no sistema político brasileiro. Um partido a mais, digerido pelo sistema. Assim foi visto pela maioria da sociedade, ainda que tenha sensibilizado quase metade dela com suas propostas e seu candidato nas eleições – fraudadas – de 2018.

Um partido capaz de se mover com desenvoltura nas disputas em torno de como gerir os rumos do país, no âmbito das regras ancoradas na Carta de 88, mas com baixa capacidade de reagir com presteza e eficácia quando a direita – e mais tarde a extrema-direita – tomaram a iniciativa de romper com aquelas regras e devolveram a disputa política para o campo da luta pelo poder real e não apenas em torno dos modelos gerenciais, como ocorrera até 2016.

Há um aspecto a ressaltar, no que toca ao processo de tomada de decisões do Partido: a pulverização e segmentação das instâncias acabou por esvaziá-las da potência política necessária para oferecer respostas que sirvam para conduzir a ação dos seus militantes. O Diretório Nacional – cujo perfil retrata uma composição, nem sempre a mais representativa, dos mandatos e das tendências – se converteu numa espécie de parlamento pesadão, com baixa percepção dos fatos que afligem a sociedade e guiado por uma lógica assentada em expedir resoluções sem dotar-se dos mecanismos para conferir se serão ou não cumpridas pelas instâncias intermediárias ou de base. Carente de força e, não raro, de legitimidade para converter em ação concreta as diretrizes que aprova. Ou seja, substituiu o impulso estimulador da ação militante que transforma a realidade, pela ilusão que alimenta a reprodução de suas próprias estruturas, à maneira dos estamentos que prosperaram em 500 anos de história  do Brasil.    

O desafio que se apresenta – e não é pequeno – ao completarmos quatro décadas é a reconstrução de instâncias diretivas democráticas, dotadas da coesão necessária em torno de objetivos programáticos de longo prazo e não apenas em torno das metas da próxima campanha eleitoral. Essa perspectiva de um projeto de maior fôlego é que será capaz de produzir lideranças reconhecidas e legitimadas.

4. A relação entre os mandatos e as instâncias diretivas – A experiência do PT na relação entre os mandatos eletivos e as instâncias de direção do Partido, não contou com uma referência onde pudesse se ancorar. Negando a ortodoxia da III Internacional ou da Socialdemocracia europeia, o Partido dos Trabalhadores serviu-se do sólido lastro de confiança construído nas lutas sociais de onde vinham seus primeiros representantes no parlamento, para orientar a relação dos mandatos com as instâncias de direção, sem maiores formalidades.

O que ficou fixado inicialmente como norma explícita resumiu-se na contribuição financeira de 30% que os eleitos deveriam depositar na tesouraria do Partido para custear as atividades da construção. Para um Partido que dava os primeiros passos no sentido de contrapor-se ao sistema político-partidário herdado da ditadura foi, sem dúvida, uma ousadia. E serviu durante muitos anos para manter à distância personalidades políticas que – mesmo no campo progressista – não absorviam com facilidade a ideia de um projeto coletivo de construção partidária de baixo para cima.

Porém, num país de cultura política profundamente assentada na figura do líder, na pessoa do chefe e não em instituições, mesmo ousada, a norma se revelou insuficiente. A introdução das “Cartas Eleitorais” fixando compromissos dos candidatos buscava lidar com uma realidade nova: a dupla legitimidade dos eleitos. A legitimidade conferida pelo Partido ao indica-los como candidatos e a legitimidade individual obtida pelo voto popular.

Quando observamos o exercício dos mandatos executivos nota-se a evolução de um desequilíbrio: os governos conquistados atraem os quadros mais experientes para as tarefas administrativas, afinal conquistar os governos tornou-se o principal objetivo do Partido. As estruturas partidárias ampliam os recursos materiais mas, em contrapartida, passam a sofrer uma severa anemia política e perdem sua independência política frente às gestões do próprio Partido. Numa frase: o PT não resiste a uma administração... do PT...

Nos mandatos legislativos, a distorção se manifesta de maneira diversa. Na ausência de uma cultura partidária forte, que deveria se expressar em instrumentos e normas adequadas – sem diminuir a importância da participação dos líderes no Senado, Câmara dos Deputados, Assembleias e Câmaras Municipais, nas reuniões dos respectivos Diretórios e Executivas – a relação entre as direções partidárias e suas representações nos parlamentos carece de maior organicidade nas suas intervenções.

Isso vale tanto para os plenários parlamentares como para as lutas sociais, onde o Partido aparece menos que os mandatados como porta-voz dos interesses dos trabalhadores. Em casos extremos inverte-se a lógica que orientou nossa construção, anula-se a legitimidade das instâncias partidárias e o Partido é posto a serviço de mandatos parlamentares.

É inquestionável, porém, que o PT segue contando – com raras exceções – com uma bancada disciplinada em relação às orientações do Diretório Nacional, reconhecida a autonomia tática indispensável à ação no parlamento. A Reforma Política, contudo, não veio. A legislação eleitoral que não reformamos durante os mandatos dos Presidentes Lula e Dilma, produz distorções formidáveis: pulveriza o sistema partidário; abre uma feira de compra e venda de tempos de TV nos processos eleitorais e, naturalmente, reforça a cultura política oligárquica herdada, ao insistir na lista aberta e fragilizar os vínculos entre os mandatados e as agremiações partidárias que os elegeram. A diluição desses vínculos repercute inevitavelmente no PT e o Partido perde em coesão programática na sua ação parlamentar.

Não vemos solução para esse desequilíbrio sem a adoção clara de uma proposta de Reforma Política centrada no financiamento público exclusivo, no voto em lista fechada, na proporcionalidade alternada, na representação de gênero, da composição da lista nos mesmos termos que utilizamos hoje para a composição das direções.  

5. A relação entre as Tendências Internas e as instâncias diretivas – Não há como negar o papel fundamental das Tendências Internas na construção de relações democráticas dentro do PT. A resolução do V Encontro que regulamenta o direito de tendência dentro do Partido refletiu, em primeiro lugar, a percepção da maioria dos militantes de que o Partido dos Trabalhadores se constituiu como um pacto político e não um pacto ideológico homogêneo, em segundo lugar, materializou em norma uma aspiração dos seus construtores de deixar para trás uma cultura política centralizadora recebida das esquerdas que o precederam. Dito isso, é oportuno lembrar alguns itens da resolução de 1987:

“3. Filiados do PT podem construir no interior do Partido, e com estrita obediência a esta regulamentação, um agrupamento para defender posições políticas e organizacionais e disputar postos nas instâncias e organismos do Partido. Um agrupamento dessa natureza é denominado Tendência Interna.”;  

“b) Os integrantes da Tendência Interna só podem ser filiados do PT e, sem exceção, submetidos única e exclusivamente às regras e deliberações partidárias, bem como às normas disciplinares e éticas previstas no Estatuto e no Regimento Interno do Partido;

“4. A Tendência Interna caracteriza-se por submeter-se ao Programa e às Resoluções do PT, por reconhece-lo como partido estratégico na construção do socialismo e por diferenciar-se na defesa de propostas alternativas ou complementares relacionadas com aspectos parciais da política, da estrutura ou funcionamento do Partido”; (Resoluções de Encontros e Congressos, Editora Fundação Perseu Abramo. Anexo, 5o Encontro Nacional, 1987, pág. 360, 361. Org. Jorge Almeida, Maria Alice Vieira, Vitória Cancelli, 1998).

Dito isso, é necessário registrar que ao longo dos anos produziu-se uma distorção. Uma inversão em que as Tendências Internas se tornaram a porta de entrada do novo filiado ao Partido dos Trabalhadores. Esse fato se torna mais grave quando o filiado entra no Partido pela porta dos mandatos e, com isso, reproduz o mais emblemático de todos os símbolos da cultura política oligárquica brasileira: “o curral eleitoral”.

Essa inversão somada à política de filiação sem critérios políticos claros produz um crescimento artificial do Partido. Converte o Partido em agente passivo, em recipiente, sem contorno definido, para um contingente considerável de eleitores que não traz necessariamente uma identificação com seu programa, seus objetivos, suas metas. Donde se pode levantar algumas perguntas bastante singelas para expor a fragilidade desse modelo de crescimento: quantos, dos dois milhões filiados ao PT, votaram em Bolsonaro? Quantos participaram de alguma atividade convocada pelo Partido desde que Lula foi preso? Quantos deles estão organizados em algum sindicato, associação ou movimento social? Qual a capacidade real do Partido de alcança-los com suas iniciativas e programas de educação política?  

As Tendências Internas tem sido historicamente instrumentos preciosos de formação política dos militantes de base do Partido, não raro até substituindo as instâncias formais do Partido quando elas não atendem aos seus objetivos, mas também muitas vezes concorrendo com elas. De todo modo, contribuíram ao longo dessas quatro décadas para aproximar os militantes das ideias e dos programas em defesa do desenvolvimento do Brasil com inclusão social, sustentabilidade ambiental, respeito às diferenças e aos diferentes, democracia participativa como método e estratégia de construção do socialismo entre outros temas do programa partidário. Quando as diferenças alcançaram profundidade incompatível com a unidade de ação do Partido, com a tática definida pelas instâncias diretivas e com a própria estrutura organizativa e sua disciplina, o Partido acionou os meios – suas resoluções – para identificar a natureza irreversível da contradição e realizar o divórcio.    

6. A transição geracional – Não basta a renovação biológica, de resto inevitável. Se não cuidarmos dela, a natureza cuidará por nós dos que insistem em se perpetuar nos postos diretivos... Mais do que isso é necessária a renovação do pensamento da esquerda brasileira, que deve se manter atenta às vertiginosas transformações no país e no mundo, para tornar-se capaz de uma ação fecunda. O PT precisa compreender que se encerrou o ciclo histórico que deu lastro a sua origem. A classe trabalhadora concentrada nas grandes plantas industriais que o gerou não existe mais. (Hoje, o peso da indústria na composição do PIB se reduz a algo em torno de 10%) Ou seja, a classe operária fabril perdeu densidade na disputa política que define os rumos do Brasil.

É necessário, portanto, realizar um novo esforço para redefinir o projeto que as esquerdas devem oferecer à sociedade a partir do diagnóstico de uma economia de serviços hegemonizada pelos interesses rentistas, que redesenhou inteiramente o perfil das classes assalariadas. Pulverizadas pelas contratações dos aplicativos... e lançadas na luta selvagem pela sobrevivência. Para pessoas nessa condição que significado pode ter a expressão solidariedade de classe? Seguramente não será o mesmo construído no chão de uma fábrica. Trata-se, então, de identificar as matrizes do novo imaginário desses explorados que resultará das brutais condições de vida que enfrentam, para nos tornarmos capazes de dialogar com eles. Além disso não podemos ignorar o fato de que somos, hoje, uma sociedade atravessada por uma guerra civil difusa, embora concentrada em determinados territórios, sobretudo em grandes metrópoles, sob o impulso de um novo agente econômico consolidado e de grande fôlego: o crime organizado.

Nesse ambiente de enormes dificuldades, é necessária e urgente a recuperação da sintonia entre a principal força política popular do país e os mecanismos de produção e circulação de informação e conteúdos que a revolução digital tornou possível. É necessário entender que a direita – e a extrema-direita – souberam se apropriar deles adequadamente como um reforço para nos impor as derrotas dos últimos anos: o golpe que derrubou Dilma, a prisão do Lula e a fraude que elegeu Bolsonaro.

A direita e a extrema direita, que nesse momento a hegemoniza, claramente se despediram do debate sobre alternativas gerenciais para o desenvolvimento brasileiro, dentro dos marcos da Carta de 88, como ocorria nos últimos anos, e trouxeram o conflito de classes para o centro da disputa política, sem subterfúgios utilizando-se daqueles meios tecnológicos para destruir de forma implacável os instrumentos que construímos ao longo das últimas décadas: as associações, os sindicatos, os movimentos sociais que organizavam até recentemente a vontade coletiva dos trabalhadores.

Estamos atrasados. Alguém dizia há pouco tempo que o plenário dos encontros e congressos do PT já são digitais, mas as mesas que os dirigem seguem sendo analógicas... Num certo sentido a relação do PT com os meios digitais reproduz a experiência dos antigos partidos convencionais quando se tornaram obrigatórios na televisão os programas eleitorais: habituados aos comícios criaram o que na época se chamou de “Palanque eletrônico”. Consistia em utilizar de forma inadequada a linguagem típica dos comícios onde, aos berros, oradores se dirigiam às massas, por meio de uma tecnologia – a TV – que alcançava uma família dentro da sala de jantar... Resultava num programa maçante, insuportável que o telespectador resolvia apertando do botão off. E abominando a política.

Quem restabelecerá o diálogo entre o Partido e as novas gerações formadas pelo mundo digital, pela informação online, pela linguagem fragmentada das redes sociais? Ou será a juventude militante ou não será ninguém. Portanto, o PT deve dotar-se com urgência dos mecanismos políticos adequados para gerir a renovação dos seus dirigentes, ou será colhido pela incontornável determinação biológica... sem capacidade para sustentar de forma  duradoura seu projeto de transformação da sociedade brasileira.

7. O PT e a construção da Frente Popular – Para que projeto de sociedade estamos formando nossos militantes? Qual a contribuição do PT à disputa ideológica com a nova direita e extrema-direita numa sociedade que aparentemente esgotou com os governos Lula e Dilma as possibilidades de se governar o Brasil a partir de uma composição política onde todos, ainda que de forma desigual, possam ganhar? Num quadro de extrema polarização política, como o PT se posiciona no discurso e nas medidas que deverá assumir por necessidade histórica, para redefinir seu perfil como Partido e tornar-se um instrumento adequado para cumprir o objetivo estratégico de reconstrução da democracia?

Sabemos todos que o Partido dos Trabalhadores é inseparável das lutas pela reconstrução da democracia, no Brasil, ao longo de quatro décadas. Empenhados em nos aniquilar, nossos inimigos também sabem. Portanto, não podemos ignorar uma evidência mundial na sociedade contemporânea: a crise da democracia, mesmo nos países centrais. Podemos vesti-la com qualquer roupagem, mas o fato concreto se impõe: o capitalismo hegemonizado pelo sistema financeiro se despediu de sua mais vistosa invenção política: a democracia liberal representativa. Dito isso, devemos extrair lições do golpe de 2016  para entender que nossos inimigos – aqui em Pindorama – não exibiram, quando surgiu a oportunidade, nenhum escrúpulo em violar a Constituição de 88 quando, depois de quatro derrotas consecutivas, julgaram-na um obstáculo para seu retorno ao poder.

Para o Partido dos Trabalhadores, além de se empenhar, como parte da resistência ao Estado de exceção, na preparação para as eleições de 2020 que se aproximam, se impõe a necessidade de debater os limites de uma democracia visivelmente sob tutela militar ou do Judiciário, ou de ambos. Devemos nos perguntar: o pleito de 2020 se dará nas mesmas condições do pleito de 2018? Os candidatos apresentados pelas esquerdas, aqueles que têm chances reais de vitória, conseguirão registar suas candidaturas ou serão encarcerados como Lula e impedidos de chegar às urnas?

A resposta a essas questões definirá os rumos da estratégia a ser adotada pelo PT para conduzir sua resistência à tirania neofascista e não ser reduzido a um simples partido de opinião: liderar a formulação de um Programa Mínimo para a construção de uma Frente Popular e sua política de alianças com outros setores democráticos ao centro. Não há, aparentemente, como evitar a discussão sobre os termos da reconstrução democrática no Brasil sob ataque do governo Bolsonaro, sem alargar seus marcos para além da democracia liberal representativa que entrou em colapso com o golpe de 2016.

As esquerdas da 8a economia do mundo não podem se furtar a aglutinar forças sociais e políticas em torno de um projeto de desenvolvimento que afirme nossa soberania, assentada sobre fortes vínculos com nossos irmãos latino-americanos; que não entenda a Amazônia comum – neste momento ameaçada – como colônia fornecedora das condições de habitabilidade do planeta e ao mesmo tempo fornecedora de matéria-prima, energia e mão de obra barata; mas como patrimônio a ser pesquisado, conhecido na dinâmica sustentável dos seus ciclos de produção e reprodução para que não seja destruído pela cupidez dos predadores do agronegócio de hoje e sequestrado para sempre como um bem precioso que será negado às gerações futuras.

Ao estabelecer sua estratégia de Partido contemporâneo, atuando nas condições da crise da democracia, o PT deve explicitar o caráter do seu programa, diante do colapso planetário que o capitalismo produz sob nossos olhos: a sociedade socialista do século XXI. Não como construção teórica da vontade de uns poucos iluminados ou obra de tecnocratas, mas como desenvolvimento inseparável das lutas do nosso povo. Não custa lembrar um dos momentos mais fecundos da elaboração política do Partido:

“O PT não concebe o socialismo como um futuro inevitável, a ser produzido necessariamente pelas leis econômicas do capitalismo. Para nós o socialismo é um projeto humano cuja realização é impensável sem a luta consciente dos explorados e oprimidos. Um projeto que, por essa razão, só será de fato emancipador na medida em que o concebemos como tal: ou seja, como necessidade e ideal das massas oprimidas, capaz de desenvolver uma consciência e um movimento efetivamente libertários. Daí porque recuperar a dimensão ética e política é condição essencial para o restabelecimento da unidade entre socialismo e humanismo” (O Socialismo Petista, 7o Encontro Nacional, 1990. Resoluções de Encontros e Congressos, cit., Editora Fundação Perseu Abramo, 1998)

Não podemos ignorar que, cento e trinta anos depois da Abolição, o país não destruiu a obra mais duradoura da escravidão: o racismo. Sequer vencemos a pobreza. Depois dos avanços obtidos em nossos governos, o país volta ao mapa da fome e os direitos conquistados dos trabalhadores são destruídos.  Sem ignorar essa chaga indelével que marca a sociedade brasileira, mas sem renunciar ao legado libertário que historicamente nos justifica, vamos levar o combate à pobreza, como fizemos quando assumimos o governo, ao patriarcalismo, à violência criminosa, velada ou explícita, contra as mulheres, contra os segmentos LGBTI, contra os diferentes. Vamos afirmar os valores da cultura popular sedimentada ao longo de milênios de história, desde os povos originários, carregadas de símbolos que modelaram nossa face como povo diante do mundo, permeados pela solidariedade, inseparável da nossa condição como seres humanos.

Lula Livre!

Por: Paulo Pimenta.

Nenhum comentário: