28.12.20

Uma nova Lei de Gérson, nascida no Flamengo, tomou conta do noticiário esportivo


“Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”.

Como essa frase Gérson, o cérebro da Seleção de 70, encerrava um comercial de cigarros e involuntariamente associava seu nome, de forma pejorativa, à malandragem. Nascia a Lei de Gérson, ou mania de querer levar vantagem em tudo, sem se preocupar com questões éticas.

O  “Canhotinha de Ouro” começou sua carreira como meio-campista no Flamengo no final dos anos 50, e é duplamente famoso pelo futebol e pela lei.

Hoje, uma nova Lei de Gérson, nascida também no Flamengo, tomou conta do noticiário esportivo.

Quando Gerson virou revoltado para encarar Ramirez, alegando ter ouvido “Cala boca, seu negro”, a revolta de ver um jogador do Bahia, o clube mais antirracista do país, envolvido em caso de racismo pra mim, foi maior que a razão.

E, como escrevo sempre meus textos “no calor do final do jogo”, acabei errando no julgamento que fiz a Ramirez, condenando ele de pronto, confiando na voz da vítima. Errei (mas não errei só).

O que aconteceu depois foi um espetáculo de três grandes grupos.

Os que, como eu, revoltaram-se com a acusação, os que partiram para a defesa de forma equivocada do jogador e os que queriam esperar as investigações para opinar (que inveja desses). E quem mais acertou foram justamente os mais acusados de estarem errados: Bellintani e o Bahia.

A verdade é que o Gerson não conseguiu provar a ofensa (até o momento em que escrevo esse texto). Nenhuma câmera, microfone, ou colega dele, captou a injúria racial.

Mas a imprensa comprou a narrativa dele, a CBF saiu em apoio ao Flamengo (novidade) e todos execraram Ramirez. Sem as provas, tentaram inventar a injúria racial, dessa vez, com Bruno Henrique, mas o tiro saiu pela culatra. O que encontraram foi uma ofensa xenofóbica do jogador flamenguista, em bom português, chamando o Índio de “Gringo de Merda”.

Do lado dos defensores inveterados, o erro foi tentar mudar o foco da questão. Fotos de Ramirez com amigos negros circulavam nas redes (tipo: não sou racista, tenho amigo preto), de Gerson xingando jogador nordestino e até abaixo-assinado no Avaaz pela reintegração de Ramirez ao elenco.

Quem acertou mesmo foi Bellintani (e escrever isso vai me custar alguns xingamentos). O Bahia é o clube que ganhou destaque internacional no combate ao racismo. Não poderia se omitir diante de uma denúncia tão grave. Afastou o jogador para investigação, protegendo a imagem do clube, e obviamente, a do próprio jogador também.

Ligou para Gerson e prestou solidariedade pelo que ele ouviu (ou acha que ouviu). Prestou assistência psicológica a Ramirez e acionou seu departamento jurídico. Contratou um perito que desmascarou a segunda tentativa flamenguista de acusar o jogador. E pronto. Como escrevi nos whatsapps da vida, sou do marketing e da gestão esportiva, e não posso pensar somente com minha cabeça de torcedor numa hora dessas.

Agora, cabe ao Bahia, abrir uma ação contra a xenofobia de Bruno Henrique. O vice presidente do Flamengo, que estava todo cheio de razão sobre a condenação de Ramirez, agora já fala que o Bahia quer inverter as coisas. Tentou até dar desculpa e dizer que chamar de gringo é normal. Atitude de um dirigente canalha.

É lamentável que um jogador como Gerson faça o que fez. Ele QUASE deslegitimou todo um trabalho de anos feito pelo Bahia contra o preconceito. Acusou, sem provas, um jovem colega de profissão de ter dito algo que nem faz parte do vocabulário da língua dele.

O Flamengo tentou aplicar a Lei de Gerson e, quando viu que não havia nada no primeiro caso, tentou desviar a atenção pra Bruno Henrique. É lamentável que algo tão sério, que levou a ameaças a família de um jogador promissor, seja feito dessa forma tão irresponsável. E ainda mais com toda a mídia que sempre esteve a favor dos cariocas.

A Lei de Gérson não rolou dessa vez. Que pena que um jogão de 7 gols e duas viradas fique marcado por duas acusações, SEM PROVAS, de racismo.

A verdade vai superar a malandragem carioca e o Gerson não vai levar vantagem alguma dessa vez.

Por: Erick Cerqueira.

Publicado no Futebol Baiano.

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