17.9.20

O encontro



Eu estava estudando no Colégio sete de setembro, na cidade onde nasci, e moro até hoje, Paulo Afonso, na Bahia. Era início dos anos 80. Não me recordo exatamente o ano, mas me lembro bem de algo que aconteceu. 


Naquela época eu militava no movimento estudantil e era muito comum ser convidado a participar de encontros estaduais, e nacionais da classe. Mas antes, claro, tinha que passar por todo o ritual de indicação: indicação pelos amigos da sala, vencer os outros estudantes na etapa escolar e depois na Unespa – União dos Estudantes Secundaristas de Paulo Afonso. Eu fui um dos fundadores da instituição.


E foi assim que, por muitos anos, eu consegui viajar e conhecer “outro mundo”, diferente da minha terra, assim como novos costumes. Mas, para que isto ocorresse, sempre tínhamos que fazer campanhas de arrecadação de fundo financeiro, de sala em sala, em toda a cidade. 


De tanto pedir ajuda e receber, um dia eu tive a ideia de mudar isto. Seria possível, as pessoas não só darem a contribuição, mas também, receber algo. E foi assim que eu procurei o meu amigo (in memoria) Cesário Alves, que era um artista magnífico. Tanto que na praça principal da cidade estão algumas de suas obras em esculturas expostas. Ele também era pintor, e foi por isso que o procurei. 


A ideia era simples. Em vez de pedir só o dinheiro, dessa vez daríamos uma camiseta com uma poesia escrita nela. E, claro, seria uma das minhas, já que eu sabia que todos iriam gostar. Todo poeta acha que todo o mundo quando ler algo escrito por ele, vai amar. Mas não foi bem assim que aconteceu. Eu entrava na sala e ninguém, absolutamente ninguém doou nada naqueles dias. Foi uma decepção arretada. Confesso que teve um momento que chorei. Não foi algo escandaloso, mas chorei. 


Preocupado com a possibilidade de que o meu empreendedorismo desse totalmente errado e que, dessa vez, não poderia viajar a Fortaleza para o encontro nacional de estudantes que ocorreria lá, baixou em mim uma tristeza que chamou a atenção da professora de português. Ela vendo meu abatimento, no intervalo me chamou para saber o que estava acontecendo. Eu contei a ela a minha estratégia e a decepção de não ter sido bem aceitas as camisetas com minha poesia. Foi quando aquela mulher me abriu uma luz. Ela pediu para que eu fizesse outras camisas com poesias de poetas renomados. Foi a solução para o encalhe do material.


Deixei passar três dias e retornei as salas de aula. Dessa vez oferecendo camisetas com uma poesia de Carlos Drummond de Andrade. Poeta carioca, e bastante conhecido entre todos. Ao menos o nome, as pessoas sabiam quem eram. Ainda tive a ajuda da professora. Entravamos sempre na sala em que ela estava, e fazíamos a propaganda e ela ajudava no pedido a todos. 


Naqueles dias, descobri duas coisas. Ter a ajuda de uma professora em sala de aula é fundamental para conseguir convencer a todos. Vender camisetas com uma poesia minha, dizendo que era de Drummond, era um negócio da China. 


Consegui o dinheiro para a viagem a Fortaleza. Ao retornar, sempre prestávamos conta aos estudantes nas escolas de todas as decisões que eram tomadas naqueles encontros, que ajudaram a construir o meu conhecimento. Ainda hoje, os jovens deveriam participar do movimento estudantil. Há sempre o que se aprender nestes encontros, e esses conhecimentos vão servir para a vida.

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