Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)
Em 1938, regressando de Munique, aonde fôra negociar com
Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento
britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”.
Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo
europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um
novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.
É história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo, nem seria o último registro nos conflitos do século passado e nos conflitos de nossos dias, ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciando outro passo atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados por agressores mais poderosos. O agressor sempre avança onde há menor custo. Como ensinavam os argonautas, “navegar é preciso”.
Quando se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um ponto em que não há nada mais a entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembra Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os comunistas... Depois os social-democratas... Depois vieram me levar, e não havia mais ninguém para protestar”. O silêncio da comunidade internacional em face da política dos EUA não é neutro. A indiferença ante a dor de suas vítimas, países e povos é escolha.
Em 1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, com forte apoio socialista e comunista, aderiu à política de “não intervenção”, fechando oficialmente a fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilização interna que via em seus calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essa foi sua contribuição para a vitória do franquismo. Caso isolado foi a intervenção cautelosa, mas real, da URSS, ao lado dos republicanos.
Na mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutrirem simpatias com o governo republicano (ou ainda enxergarem as implicações do enclave fascista na Europa ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) — enclausuram-se na política isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial. Era o receio de reações internas, especialmente congressuais.
Guernica não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assim como o genocídio palestino — ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crime continuado perpetrado pelo sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto os tantos crimes que se cometem contra o povo cubano, desde a revolução de 1959, não se podem contar apenas como engenho e paranoia do imperialismo norte-americano.
O que a humanidade – nossos povos, nossos governos, nossos
partidos, cada um de nós -- está fazendo para defender suas vítimas?
Todas as ditas democracias, todos os governos ditos de esquerda e centro-esquerda, todas as nossas organizações têm que assumir sua cota-parte de responsabilidade. Não há inocentes nesta guerra.
Retornemos a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn. Começava, em 1939, após o fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, a Segunda Guerra Mundial — que seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe. Seguem-se, ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo, anunciada com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projeto socialista, com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991.
A polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedom nuclear, foi conduzida pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica” e, ao final, de “entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potências e seus projetos de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menos respeitada de suas respectivas áreas de influência e controle. Mesmo mantendo a tensão e as disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao tempo em que conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os riscos dos impasses diretos.
São os muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marca mais significativa da Guerra Fria, quando a violência — política, militar e ideológica — se desloca para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada mais significativo do que a invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o Oriente Médio. A América Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de “quintal”, o fardo que sobre nós pesa desde os amargos tempos da Doutrina Monroe, agora reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não mais Defesa) dos EUA.
Com o colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro sem adversário, livre de freio sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. A diplomacia cede ao tacape. Regressamos, em termos planetários, ao regime do big stick.
Desde logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob a
fase trumpista pode ser considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída em
regras de direito internacional, levam à falência fática as organizações
fundadas no pós-guerra com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurança
internacionais, caso exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agências
multilaterais, como a UNESCO e a OMS, fragilizando mecanismos de cooperação
internacional construídos ao longo de décadas.
A polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar, política e ideológica do imperialismo norte-americano, o regime de hoje, belicoso, agressivo, sem limites para seu expansionismo, tanto inquestionado quanto facilitado pelo vazio da resistência.
Na paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quanto mais decadente, o “après moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a “Grande Alemanha” (Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America Great Again (MAGA), o nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do ensaio social-democrata) e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América para os americanos”. Formulação que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em sua acepção mais ampliada possível: o espaço no qual Washington divise, imagine ou desconfie da sombra de uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à sua integridade, na estrita lógica do diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado na fábula de La Fontaine.
À ausência de freios de qualquer ordem — freios morais,
diplomáticos, geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso da
polaridade e da Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA,
autoinstituídos xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”. Todos os
seus reais, supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaia
contra o branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação,
criminosos irrecuperáveis, que precisam ser eliminados.
A Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dos acontecimentos nos quais não consegue intervir, carente de futuro, cuida de seu esvaziamento e da ameaça de balcanização. As potências nucleares com pretensões hegemônicas para amanhã cuidamde suas demandas. A Rússia, ameaçada pela OTAN e pelo cerco econômico-político dos EUA — que inclui o bloqueio de reservas em dólar, restrições comerciais e limitações às exportações de petróleo — tenta salvar-se de uma guerra de desgaste que, projetada para cumprir-se em poucos meses, entra em seu quarto ano. Pode ser seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão. A China trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negócios mundo afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova “convivência pacífica”.
A série de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa e está muito longe de concluir seu repertório. Fixemo-nos na América Latina, e o primeiro registro é o da invasão da Venezuela, transformada em protetorado sob a regência da Casa Branca, depois de ter seu presidente (não vem ao caso que seja) sequestrado e transferido para uma prisão em NY. Antes, durante e depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim e ao cabo, o sequestro de suas reservas de petróleo.
Mas o que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamente
covarde, que ameaça matar de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo,
hoje, não é mais destruir a resistência do regime tentativamente socialista,
mas eliminar sua gente. A pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamento
político e bloqueio econômico, invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular a
economia como forma de disciplinar um governo eleito como adversário, ainda que
o custo recaia sobre a população.
Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusão
da incolumidade, não identificamos como ameaça o isolamento para o qual
caminhamos na América do Sul, nem consideramos como precedente perigoso a
invasão da Venezuela. Lembrando, uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não é
socialista e nosso presidente não é acusado de traficante. Nada a temer.
***
Reacionarismo digital — É certo que nada se pode esperar dos
ainda chamados jornalõesbrasileiros, cuja linha editorial (no singular, pois é
uma só) reflete a mentalidade do patriciado aqui instalado. No entanto, não
deixa de espantar que, numa mesma semana, a Folha de S. Paulo (em campanha
contra a escala 5x2) alardeie que o trabalhador brasileiro é ocioso, valendo-se
de dados enviesados, e O Globo, em editorial, xingue de “chantagem” a luta
indígena que fez o governo Lula recuar, momentaneamente, da privatização de
rios amazônicos. Parafraseando Millôr Fernandes, os grupos familiares de
comunicação sediados no Brasil têm um grande passado pela frente...
Por: Roberto Amaral.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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