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| Imagem ilustrativa |
A turma era formada por Peter, Carlinhos e o próprio Ricardo. Juntos, eles seguiam para a escola como quem vai para uma expedição científica e o objetivo não era aprender, mas descobrir novas formas de provocar o cachorro da Rua Castelo Branco. O pobre animal, preso atrás de um muro perto do Bar do Cabeça, já tinha virado atração turística. Os meninos passavam, cutucavam, faziam caretas, e o cachorro respondia mostrando os dentes como se fosse o vilão oficial da novela. Eles saíam rindo, como se tivessem vencido mais uma batalha épica.
Mas naquele dia, o roteiro
mudou. Ricardo jura que ninguém mexeu com o cachorro. “Juro por Deus, nem um
assobio!”, ele repete até hoje. Só que o bicho parecia ter acordado com
espírito de Doberman. Saiu babando, olhos de vingança, e correu atrás da molecada.
Todos dispararam como atletas olímpicos, menos Ricardo, que foi alcançado e teve
a calça rasgada na região mais estratégica do corpo. Resultado foi uma mordida
na bunda que ecoou em gritos ouvidos a quilômetros de distância.
O hospital virou palco da
tragédia cômica. Os amigos diziam que era para evitar “tétano”, mas a verdade é
que queriam ver a cara de Ricardo com o curativo. A marca dos dentes ficou como
tatuagem natural. E se não bastasse, a mãe decidiu aplicar o tratamento caseiro
e esfregou alho no ferimento. O menino passou dias cheirando como tempero de
feijoada e reclamando que a dor era pior que a mordida.
Ricardo, claro, não se
conformou. A honra da rua estava em jogo. Juntou os amigos e arquitetou um
plano de vingança contra o cachorro. Era preciso mostrar que nenhum vira-lata
poderia humilhar a turma. Para a missão, convocaram Barão, um brutamonte que parecia
ter sido criado para segurar touros em rodeio.
A estratégia era simples, o
Barão provocaria o cachorro, e quando o bicho avançasse, a tropa entraria em
ação. Funcionou. O cachorro saiu furioso, mas foi cercado pelos meninos. Uns
seguraram as patas, Barão agarrou a cabeça, e Ricardo, finalmente, teve sua
chance de vingança.
E aí aconteceu o impensável
quando Ricardo mordeu o cachorro. Sim, mordeu. Na barriga. Com a boca cheia de
pelos, decretou sua vitória. O cachorro, traumatizado, nunca mais encarou o
menino. Ao contrário, quando via Ricardo, disparava em fuga como quem lembrava
do gosto amargo da vingança.
Desde então, a rua ganhou uma
nova lenda, o garoto que não só foi mordido, mas que também mordeu de volta. E
se alguém duvida, basta perguntar ao cachorro, embora ele provavelmente não
queira falar sobre o assunto.

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