Mas Ricardo nunca foi um homem comum. Num certo dia, acordou
apressado para um compromisso profissional. Vestiu sua melhor camisa de mangas
compridas, calça de linho branco e sapato de bico fino. Estava alinhado, pronto
para impressionar. Só que, ao girar a chave do Chevette, nada. O carro se
recusava a ligar. Tentou uma, duas, dez vezes. O suor já escorria pelo rosto.
Abriu o capô e começou a mexer nos cabos como se fosse mecânico embora nunca
tivesse trocado sequer um pneu furado. Resultado da situação uma calça suja,
camisa encharcada e paciência esgotada.
Enquanto lutava contra o motor, os vizinhos surgiam nas
janelas, curiosos para assistir ao espetáculo. O relógio corria, a reunião já
havia passado, e Ricardo recebeu a notícia de que não haveria mais encontro
naquela manhã. Frustrado, voltou ao apartamento, tomou banho, trocou de roupa
e, teimoso como sempre, desceu novamente para enfrentar o Chevette. E, como num
deboche cruel, o carro pegou de primeira, suave, como se tivesse saído da
fábrica naquele instante.
Foi aí que a fúria tomou conta de Ricardo. Espancou o
volante, chutou o freio, acelerou como se estivesse numa corrida de Fórmula 1.
Empurrou a porta com tanta força que ela ficou presa. Desceu gritando, “é assim
que você quer, é?”. E, diante da plateia formada nos apartamentos, tirou o
cinto da calça e começou a dar uma surra no Chevette. Três minutos de golpes,
gritos e fivela marcando a lataria. O carro, impassível, aguentava tudo em
silêncio, como quem sabe que, no fim das contas, sempre terá a última palavra,
não ligar quando mais se precisa dele.

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