5.4.21

Aos mortos se sonega até as homenagens

No interior do Brasil até março do ano passado (2020), era comum pelo interior das cidades se ouvir um carro de som anunciando a morte de pessoas. Para isto parece existir um texto pré-definido pelo locutor, que sempre é a mesma voz. Parece até que ele foi oficializado para tal tarefa. Voz grave com música funesta narrando, “a esposa, os filhos, os netos de FULANO DE TAL, convidam os amigos e parentes para o sepultamento que acontecerá hoje, às 17 horas. O féretro sairá da Igreja da Matriz para o cemitério local”. 

Com a chegada da pandemia do Covid-19, até mesmo estes tipos de anúncios deixaram de acontecer. Nem pobre, nem rico, todos os nomes dos mortos deixaram de ser anunciados. Até mesmo as missas de sétimo dia não foram feitas. 

Os enterros, antes lotados de amigos e parentes. Aqueles que nunca mandaram nenhuma carta resolveram aparecer.  Todos vindos de cidades diferentes com seus filhos e amigos agregados que sequer conheciam o defunto. Tudo isto acabou. Agora o defunto segue levado por dois profissionais do cemitério, um parente com medo de pegar na alça do caixão e alguém que sempre é convocado para ajudar na hora.

A cerimônia é tão rápida que a despedida se resume ao choro daqueles que se despedem. 

Todo este cerimonial fúnebre anterior à ida do corpo ao cemitério nas cidades deixaram as ruas e agora estão ocupando as redes sociais. Chegamos a situação de que ao abrir o whatsapp na primeira hora da manhã começamos a contar os mortos anunciados em tudo o que é grupo. 

Para quem como eu que já passei dos 50 anos, ver nomes conhecidos da infância e juventude, amigos, parentes e familiares perdendo a luta para o vírus é doloroso. Assim como é doloroso ver festas acontecendo e aglomerações acontecendo por todos os cantos do Brasil. 

Todos os dias a lista de mortos só cresce, e o medo daqueles que estão lutando para viver é grande. 

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