24.3.15

Veja lança Eduardo Cunha contra Cid Gomes.

A capa de Veja desta semana incensando o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, só pode ser entendida como reflexo do desespero das elites, de que a revista se coloca como uma das maiores expressões, em forjar um candidato com força para vencer a eleição presidencial de 2018.
A princípio, ninguém entendeu aquele frisson vejítico em torno de Cunha, um tipo pouco simpático e carente de qualquer carisma, além de envolvido em graves denúncias de corrupção a ponto de ter sido indiciado na operação Lava Jato. Aécio Neves, que se tem se escorchado em ocupar o noticiário e atacar a presidenta, já não serve ao patronato? Ou será o fenômeno Cid Gomes, que rebentou nas redes sociais, com seu dedo em riste apontando justamente Eduardo Cunha como um dos 300 ou 400 políticos achacadores, em plena sessão da Câmara dos Deputados, que desconcertou os pretensos tutores do pensamento único brasileiro?
Seja como for, é importante estar atento, pois, como dizia Leonel Brizola, muitas das carreiras políticas foram incubadas pelas capas do semanário paulista, que aportou no Brasil há 47 anos, com vigoroso suporte de capital estrangeiro e que desde então se perfila, com a Globo, a Folha e o Estadão, ditando a agenda política. Ultimamente, já não mais se restringindo aos bastidores do Congresso, do Judiciário e do Planalto, mas nas ruas, como demonstraram as últimas passeatas e panelaços.
Só que a Veja e seus grandes aliados midiáticos já não usufruem do monopólio absoluto da opinião. Eles agora têm de lidar com a força das redes sociais e dos blogs da internet, cujos acessos, potencializados com os smartphones, já superam a audiência da TV e do rádio. E foi lá na internet que irrompeu a corrente, não de forma orquestrada mas espontânea e natural, pró Cid Gomes, o ministro da Educação demitido por ordem de Eduardo Cunha e de seus aliados do PMDB e do chamado baixo clero do Congresso.
Antes de ser ministro de Dilma por pouco mais de dois meses, Cid era conhecido e por isto foi nomeado para o MEC, como um gestor respeitável e líder político de sensibilidade social, atestado por dois mandatos como governador do Ceará e um de prefeito de Sobral. Cid é também irmão de Ciro Gomes, o ex-governador, ex-ministro e ex-candidato a presidente, que quase se tornou imbatível na eleição de 2002.
A reportagem da Veja, porém, abriu um flanco, ao estimular o cotejo dos dois personagens, ainda que tenha, na dita capa, minimizado o episódio de Cid na Câmara, reservando-lhe pouquíssimas linhas. Já não sozinha na crítica da opinião publicada, mas tendo de competir com as redes sociais, sente-se inevitavelmente constrangida em, indiretamente beneficiar, na comparação, a biografia de Cid Gomes, no momento em que ela própria admite o que chama de “passado suspeito” de seu candidato.
Leiamos a parte da reportagem em que a revista se vê obrigada a admitir os percalços de seu personagem. Abramos aspas para estas preciosidades:
“Eduardo Cunha pode não ser, como parece mostrar seu passado, um monumento à ética. Mas desde que seus pecados pertençam ao passado… há esperança porque “o nosso povo mereeeece respeito”.
“O nascimento político de Cunha não poderia ter se dado em condições mais suspeitas. Isso ocorreu em 1991…, pelas mãos do tesoureiro PC Farias. Foi PC quem indicou o então assessor parlamentar do PRN para a presidência da Telerj… Cunha ficou dois anos na empresa. Saiu de lá com fama de pertencer ao malfadado “esquema PC”, que levou Collor ao impeachment…”
“…se tornou presidente da Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (Cehab) durante o governo Garotinho. A gestão foi relâmpago. Em seis meses, ele teve de renunciar, acusado de beneficiar a empresa de um ex-auxiliar collorido”.
“…Como só relógio trabalha de graça, conta-se como (Cunha) cobra caro dos empresários por sua dedicação ao tema de interesses deles. Pede doações para as campanhas políticas dos deputados que gravitam em torno dele”.
Não obstante, para a Veja, “Eduardo Cunha é o símbolo mais acabado destes novos tempos… Do outro lado da Praça dos Três Poderes, impávido, líder de bancada fiel… passa a impressão de ser a única referência do mundo político que não está se derretendo no ar”.
O episódio demonstra mais uma vez que a mídia ainda é muito poderosa no Brasil, mas que se torna cada vez mais vulnerável na medida que a guerrilha na internet consegue algum espaço para a reflexão.

Francisco das Chagas Leite Filho, repórter e analista político, nasceu em Sobral – Ceará, em 1947. Lá fez seus primeiros estudos e começou no jornalismo, através do rádio, aos 14 anos.

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