25.4.21

O povo é que mais ordena: terra da fraternidade (Por Julian Rodrigues)


A revolução dos Cravos faz 47 anos: sobrou um cheirinho de alecrim 

Eu sei, eu sei.. a Revolução Russa é o paradigma-mor, a chinesa algo extraordinário, a cubana, a coisa mais linda que fala tanto aos nossos corações latinoamericanos. Porém, todavia, entretanto, contudo confesso: a revolução dos cravos , ah a revolução portuguesa...

O salazarismo, esse fascismo tão singular, quatro décadas de uma ditadura bem ibérica, reacionária e católica. Liderada por um intelectual, manteve alguma distância da radicalidade de Hitlter e Mussolini – Portugal se manteve “neutra” na Segunda Guerra , e não conheceu uma guerra civil  sangrenta como a vizinha Espanha. 

Um pequeno país, ainda metrópole colonial, atrasada e pobre, entretanto. O salazarismo não estimulava milícias , mas reprimia brutalmente. A virulência das guerras coloniais na África..
.

Saber que o Brasil é África, é indígena, mas é  muito Portugal demais. A língua que é um “código secreto”, a herança colonial e suas tensões. E se lá houve aquele bas-fond todo, aqui também talvez role também.

Essa metrópole de  segundo escalão,  sempre a esperar  Dom Sebastião. A aposta no futuro pelo regresso redentor. E não somos nós também desde sempre o país do futuro?

Nem Camões ou Pessoa, claro, puderam estancar a  decadência – uma nação (europeia pero no mucho), encurralada entre  certo passado distante glorioso e remanescências de poderes coloniais. 

O velho do Restelo  (Os Lusíadas) teria acertatado ? A vaidade e  a cobiça daquela nação quinhetista  que se queria império e se pôs a conquistar o mundo  trariam   fama e glória mas junto com desastres, perigos, tormentas? 

Portugalzão. Portugalzinha. Tão pequenina e tão predestinada à grandeza?  Fernando Pessoa  aposta na reconstrução da história e da mitologia da pequena nação heroica (ou será que não?) -  Mensagem foi publicada em 1934, já com Salazar no poder (!)

Ponta da península ibérica, saramagueanamente  jangada pedrogosa -   europeia descolada da Europa. Longe e pertim das américas, ásias e áfricas. Tanto mar, tanto mar. Nossa mãe escravocrata, cruel e espoliadora essa  Portugal. 

E  aconteceu a Revolução dos Cravos,  o MFA.. os capitães de abril. O furacão e  posterior derrota (que,  ainda assim, moldou uma nova nação muito mais socialmente justa e moderna).

Por isso tudo que em todo 25 de abril  faço meu ritual: ouvir Grandola Vila Morena milhões de vezes (e muito José Afonso), visitar os sites do PCP, ler algo sobre a história da revolução dos cravos, ouvir  muito Chico cantando as duas versões de Tanto Mar. Segue por aí. Algumas amigas amadas são é minhas cúmplice nessa celebração íntima, ano após ano. (Quem disse que os ateus não tem suas cerimônias e rituais?)   

Para entrar no clima, a canção-senha, Grândola Vila Morena:

O nosso Valerio Arcary esteve lá. Um artigo introdutório dele:  “A revolução portuguesa 1974/75: uma revolução solitária

Depois, é só ver o filme da Maria Medeiros, de 2000 já clássico: “Capitães de Abril”.

A aula de Rosa Gomes, do GMARX/USP, no curso da Fundação Perseu Abramo (Fascismo, ontem e hoje, façam!)

Gosto muito  também do livro do  Lincoln Secco: “A Revolução dos Cravos: e a Crise do Império Colonial Português“.

Chico (refiro-me à Francisco Buarque de Holanda, nascido em 1944, filho de Sérgio Buarque de Holanda e  Maria Amélia Buarque de Holanda,  o maior artista vivo do país)  em plena ditadura compôs uma música reverenciando  a revolução dos cravos. Queria ele estar naquela festa do povo   português, torcendo para que algo assim aqui.

Depois da derrota do impulso revolucionário original, Chico refez a canção, com pequenas e genais adaptações (foi bonita a festa, mas esqueceram uma semente em algum canto)  conservando a beleza estética-política da obra.

Estou sentindo algum cheirinho de alecrim, fraquinho.  Escuto sinais, todavia.  Tem flores vindo aí, muitas flores. 

Tou vendo uma esperança (viva Henfil)!

Lula Presidente em 2022 é a campanha das nossas vidas.  Não tem nada a ver com uma eleição comum. Trata-se de um tsnunami cultural, político e social. A superação de um ciclo de trevas. O marco de um novo tempo:  vida x morte, civilização x barbárie. O enterro do bolsonarismo e do neoliberalismo!

Mas tudo começa agora. Estamos desafiados a instituir uma disrupção político-cultural-ideológica-programática-ética-estética.

E viva a revolução dos cravos!

Por: Julian Rodrigues.

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