28.6.21

A FESTA (Do Livro: QUANDO O AMOR INCOMODA)

Foto ilustrativa

Acaba de começar a semana e já é segunda-feira, são 09h34m da manhã e ela me fala que no próximo sábado vai haver uma festa no clube da cidade. Perceba que serão sete dias o que separa o primeiro contato entre duas pessoas que se amam da data do tal evento. Porque eu falo isto? Porque você perceberá ao longo desta narrativa a tortura que é esperar esta extensa semana enquanto meu amor se prepara para mostrar para todos a nova dança que aprendeu com as amigas no salão.

À noite ao chegar a casa dela sorrindo de felicidades, pois irei encontrar o meu amor novamente. Ela abre a porta e me dá um beijo carinhoso. Apaixonado como sempre digo.

– Eu te amo! Todas as vezes que falo isto para ela é a mais pura verdade. Mas a sensibilidade feminina que todos nós conhecemos nas mulheres, aparece nas belas palavras que vem daquela boca maravilhosa.

– Tá lembrado da festa? Não vá dá pra trás agora! Já marquei com minhas amigas e todas vão estar lá!

Ai você olha com cara de quem não pode dar uma resposta à altura da provocação. Sim provocação. Ou você pensa que a vontade não a de dar as costas e ir para casa descontar aquele sono perdido no final de semana que passou?

Terça-feira no trabalho alguém grita.

– Telefone pra você? E eu pergunto.

– Quem é?

O sorriso no rosto do colega de trabalho denuncia quem está do outro lado da linha telefônica. Desloco-me até a mesa onde está o aparelho e ao passar no meio da sala todos me olham com aquele ar de “ta lascado”. Naquele momento você não consegue entende a reação das pessoas, isto só vai acontecer quando toda essa história acabar. Se é que acaba. Ao atender o chamado do meu amor me derreto todo em carinho. Você sabe quem ama perde a consciência do que acontece ao seu redor.

– Oi amor, você está bem? Estou com saudades de você, podemos almoçar juntos hoje?

A resposta vem logo em seguida, mostrando que eu sou correspondido.

- Claro meu amor! E ela emenda outra frase, mas bem poderia não ter feito. - Amor. Que lindo a voz dela me chamando de amor.

– Que roupa você acha que devo usar para irmos à festa?

O que? Lá vem ela novamente com o mesmo assunto. A Festa!

– Querida você pode usar qualquer coisa que mesmo assim ficara linda como sempre. Não fique preocupada com isto eu gosto de você do jeito que você é. É besteira querer me agradar. Você já sabe que gosto do seu jeitinho simples de ser.

Melhor seria não ter dito isto.

– Mas é que minhas amigas vão comprar uma roupa nova só para ir ao baile e eu não tenho uma roupa que sirva para mim. Todas elas vão estar lindas e eu? Eu vou com aquela que fui ao baile passado? O que vão dizer de mim? Que só tenho esta roupa!

O primeiro som de choro ecoa pela linha telefônica. Sem graça, pois todos os colegas de trabalho já tinham parado os seus afazeres e estavam me olhando com aquela cara de espanto. Viro meu rosto para a parede, tentando diminuir o som da minha voz para que as pessoas não ouvissem o que eu falava.

– Não chore amor, quando eu sair daqui nós vamos almoçar e depois se houver tempo, ainda hoje, passamos em uma loja e eu te compro um vestido novo. Nesta hora não sei se a palavra “compro” serviu como remédio, o certo é que do outro lado da linha já não havia mais ninguém a chorar e só ouço uma voz carinhosa me fazendo juras de amor. Acho que foi nesta hora que me senti mais amado ainda e o meu amor por ela ficou muito maior.

Na quarta-feira marquei de me encontrar com ela. O vestido que adquirimos no dia anterior precisava de uns ajustes. O corpo da minha amada é lindo, posso dizer a você que ele é perfeito. Lá estava ela me esperando. O amor é belo. Ao me ver, ela vem correndo com seus braços abertos e me dá um grande e forte abraço. Tentei me lembrar de outro que ela tenha dado e não me lembro de um tão bom assim. Não adianta insistir, não lembro. Ouço vozes ao redor. E estas eu conheço, são as amigas dela que também vieram para dar palpite no vestido. Não vou me alongar aqui, pois a noite estive na casa dela e ao ser recebido você já deve ter percebido qual foi à frase que ouvi. Não lembra? Lembra sim. Não insista para que eu repita. Tá bom!

– Estou nervosa, acho que esse baile vai ser o Máximo. Ham? Você queria o que? Que eu repetisse a mesma frase? Não ia ter graça!

Chegou à quinta-feira. Pelo jeito chega o domingo e parece que este sábado não vem. Ela acabou de me ligar falando que a costureira tinha errado algo no figurino do vestido. Fiquei pensando no que eu poderia ajudar e não cheguei a nenhuma conclusão. Trabalho com eventos e não lembro ter feito qualquer curso de alfaiate ou de estilista para dar minha opinião abalizada neste vestido. Mas, lá vou eu ao encontro da minha amada. Avistei-a na entrada da loja onde tínhamos deixado o vestido. Parecia-me bem e eu não imagina que o mundo estava para acabar naquele momento. De longe ela parecia bem. Mas ao me ver chegando ela caiu em prantos. Tá achando engraçado? Não? Imagine eu naquela situação em plena quinta-feira às 02h da tarde e em plena rua com alguém a chorar desesperadamente como se algo de perverso lhe tivesse acontecido.

– O que está acontecendo meu amor?

Eu sempre com carinho para dar a ela.

- O meu vestido. A costureira acabou com ele.

Pensei comigo “a mulher deve ter cortado o dito cujo e jogado a nossa ida a festa no lixo”. Comecei a gostar dessa costureira.

– Me fala o que realmente aconteceu com o vestido!

O meu tom de voz quase denuncia os meus pensamentos. Com seus olhos cheios de lagrimas e soluçando, meu amor continua a falar.

– Aqui do lado esquerdo. Ela deixou maior que o lado direito e agora vai ter que fazer tudo novamente.

Pensei e deveria só ter pensado e não falado.

– Mas foi só isto... Mal terminei o que queria dizer e ela.

– Você também está torcendo contra. Quer que nada dê certo que é para não irmos à festa. Já tinha percebido que era isto mesmo que você queria. Qual é o jogo que vai ter no sábado? Quer sair com os amigos? O que está acontecendo? Quem é a outra?

Nesta hora, nesta hora é melhor pensar duas vezes antes de falar o que realmente vem à cabeça. É nesta hora que você tem que medir o tamanho do seu amor por aquela pessoa linda e maravilhosa que você conheceu já faz oito anos. Pego ela pelo braço e vou ao encontro da costureira e pergunto se tem jeito o vestido. A mulher acaba de me informar que o que aconteceu foi que uma costura teria feito uma costura fora do lugar e que enquanto estávamos na frente da loja ela própria já teria concertado o erro da outra. Mais uma vez o sorriso volta aquele rosto lindo. Vejo o vestido pela primeira vez no corpo de quem eu amo. Perfeito. Ela vai chamar muito atenção na festa. Perai! Então se ela vai chamar a atenção de todos isto inclui os marmanjos! Tem algo errado nisto tudo, estou enfeito presente pra vagabundo! Comecei a mudar de opinião quanto a ir à festa.

Chegou à sexta-feira. Já estou nervoso com essa bendita ocasião que não chega. Foi o único assunto entre eu e meu amor durante toda a semana. Falei para todos do trabalho que hoje não atendo telefone. Desliguei o celular. Tenho que produzir ou vou ser demitido da empresa. À noite vou cedo para casa e caio na cama. Amanhã é o dia da festa e nada pode dar errado. Ela estando feliz eu estarei feliz.

08h da manhã do sábado e já tem alguém batendo na minha porta. Ouço uma voz feminina. É o meu amor. Acordar esta hora com minha linda é maravilhoso. Ganhei o dia. Quando abro a porta recebo um beijo. O amor é lindo.

– Passei por aqui para lhe lembrar que você deve passar em casa às 21h. Vou estar pronta te esperando. Acorda pra vida meu amor.

Que palavras maravilhosas para serem ouvidas numa manhã de sábado e ainda com sono. Tenho a impressão que este dia vai ser longo. São 13h e já com o celular ligado e carregado que é para nada sair errado, recebo uma ligação dela.

– Amor tá lembrado da hora? Respondo que sim.

– As meninas estão perguntando se dá pra passarmos na casa delas para irmos juntos a festa? Paro uns segundos e...

– Sim meu amor. Faremos como você quiser.

19h e mais uma ligação. Já estou com os nervos à flor da pele.

– Amor que horas você vem mesmo?

– Na hora que você pediu! E ela emenda.

- Que horas mesmo? Acho que ela tá querendo me testar para saber se eu me lembro do combinado. Nesta ela não vai me pegar.

– Às 21h querida. E ela.

– Ainda bem que não esqueceu! Ufa!

20h30m e agora quem faz uma ligação sou eu.

– Amor eu já estou saindo daqui, você está pronta?

– Não querido, passe antes na casa das meninas e depois você vem me buscar. Assim quando você chegar eu vou estar prontinha para irmos à festa. Percebi que nesta festa vou ser só um acessório e não estou gostando disso. Passei na casa das amigas e nenhuma das três estava pronta ainda. Como não tinha aonde ir fui à casa do meu amor como combinado durante toda a semana. Ao chegar toquei a campainha e quem vem me receber? Ela, meu amor... Que ainda nem banho tomou, nada de cabelo pronto, nada de estar vestida com aquele bendito vestido que me deu uma tremenda dor de cabeça durante toda a semana. Com a voz em tom de desaprovação. Isto mesmo imagine ai um tom ríspido, dos que você faz quando perde a paciência com o seu amor. Foi desta forma que me dirigi a ela.

– O que aconteceu que você ainda não está pronta? E ela.

– Você chegou cedo demais!

– Eu o que? Nesta hora, novamente, o melhor que você deve fazer é pensar naquele livro de auto ajuda vendido no camelô por R$ 1,99 e que você tem na cabeceira da sua cama e lê todas as manhãs antes de sair para o trabalho. Ele agora lhe será de grande ajuda. Não perca a cabeça, afinal em sua frente está à mulher que você quer para toda a sua vida. Ou que vai fuder a sua vida.

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