16.7.20

Um par de tênis e uma toalha (do Livro Quando o Amor Incomoda)



Elas são mesmo pessoas incompreensivas. Ontem ao chegar à minha casa feliz da vida por ter ganhado uma partida de cartas. Já tinha meses que eu só perdia. Falastrão que só eu, fui logo contando as minhas vantagens e como tinha feito para levar aquela partida tão estafante.

- Hoje arrebentei. Não teve pra ninguém.

Ao mesmo tempo em que narrava minha façanha ia retirando aquele tênis que depois de muito tempo no meu pé já estava machucando. Fiquei pensando um pouco. Há quanto tempo estou com este All Star na família.

- Isto mesmo. Depois de anos o calçado já começa a ocupar um espaço em sua vida.


Silêncio na sala e olhos fixos a me admirar. Sinto que não posso cometer mais erros com essa mulher, não é justo. Essa mulher que tanto me ama e que eu tanto amo e quero para toda a minha vida, não merece que eu a magoe.

- Hoje estou muito mais sentimental caro(a), leitor(a).

Um carro que para na frente da casa toca uma música brega que me toca fundo no peito. Estes momentos são de felicidade plena.

- Ta bom! Já bajulei muito ela, vai parecer meloso demais.

Voltando ao assunto. Aquele tênis na sala não me parecia ser um objeto que pudesse causar tantos transtornos a minha querida amada. Mas o danado é que ela parecia não gostar daquele ato e resolveu que naquele dia iria despejar todas as suas magoas em cima de mim. Se eu tivesse antes imaginado no que iria dar não teria deixado o objeto na sala.

- Pra onde você pensa que vai?

Ouvi aquela voz atrás de mim e me virei assustado com o tom que ela emitia. Grave e poderosa. Nunca antes tinha ouvido a voz daquela mulher tão firme assim. Parei diante daquele pequeno corredor que levava da sala aos quartos e seguia até a cozinha e ao pequeno muro onde tinha um pé de azeitona roxa. Foram segundos que mais pareciam minutos.

- O que foi querida?

- O que foi? Você está pensando que eu sou sua escrava é?

Posso jurar nunca tinha pensado nesta possibilidade ou mesmo que ela pudesse estar se sentindo assim.

- O que? Não estou entendendo nada! Me fala o que foi que eu fiz!

- Você não faz nada é um santo!

- Eu?

- Sim. Você mesmo. Todos os dias é a mesma coisa.

Ao falar aquilo eu vi que ela passou por mim como um raio.

- Dá para me falar o que está acontecendo aqui?

Aumentei o tom da minha voz para tentar me equiparar a ela. Sei lá o que vem de lá. O que ela descobriu. E por via das dúvidas vou para o ataque. Ela olhou para mim e até não sei o que danado aconteceu naquela noite, mesmo depois que recebi a tolha das mãos do meu amor.

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