13.1.20

Sob o Sol do Raso da Catarina


 Foto ilustrativa: 100dias.com


Desde criança que eu ouvia histórias do Raso da Catarina. As primeiras imagens que me lembro são de que alguma mulher muito rica, que tinha um grande pedaço de terras e por isso era tão conhecida, já que muitos adultos falavam sobre ela. A proprietária da fazenda que deu o nome as terras, dizem, teria permanecido, mesmo com todas as dualidades na região, até os últimos dias de sua vida por lá.

Também foi na infância que eu tive o primeiro contato com as “terras da Catarina”. Certo dia saímos, eu, meu irmão “Danda” e vários amigos para caçar passarinhos no mato. Como sempre nesses momentos, eu era o mais novo entre eles e por isso, minha tarefa era mais a de pegar “balas” (pedras que servissem para serem usadas nas petecas ou baleadeiras).


Nós passamos a manhã andando pelo mato. E enquanto andávamos, eu ouvia uma palavra estranha, mas que me marcou até hoje. Constantemente alguém falava, que estávamos chegando no “Ariado”. Era uma parte do raso onde a terra é fofa e a vegetação, quase toda ela, é formada de velame. Daí vem o nome. Para os menos experientes, a desorientação é certa. Era comum se ouvir os gritos de alguém que teria se afastado do grupo e estava desorientado, perdido.

Também ouvi histórias sobre Antônio Conselheiro e seus seguidores. Ele fundou o Povoado de “Belo Monte”, as margens do Rio Vaza Barris, hoje cidade de canudos. Foi esse povoado o primeiro levante no Brasil contra o pagamento de impostos aos municípios determinados pelo governo federal no ano de 1893. Nasceu lá, o primeiro movimento rebelde e que depois, ataco pela polícia, se tornaram os primeiros guerrilheiros das Américas.

Vem do raso também, outras histórias de lutas e enfrentamentos. Quem circulou durante um longo período de sua vida por lá, foi Virgulino Ferreira, o Lampião. Diz uma das lendas que ele passando por Macururé, uma das cidades encravadas na área e teria pedido para que um sapateiro fizesse alpargatas “Xô Boi” com os calcanhares delas voltados para a frente. Era, segundo dizem, para enganar “Os Macacos’, como eram chamados pelo bando os policiais da época.

Já adulto, eu voltei a alguns povoados que ficam dentro do raso. Eram andanças em períodos de campanha eleitoral. Aconteciam reuniões, bate papos e pequenos comícios, sempre aos domingos, que é quando as populações destas localidades estão mais presentes.

Este ano eu fui convidado por um amigo, o Josivaldo, para visitar o Povoado várzea em Paulo Afonso na Bahia. Da saída da cidade, até o local que fica dentro do raso, gastamos 1 hora e meia em um carro Uno da marca Fiat. Toda a estrada é em terra batida. A poeira quando da passagem do carro é tão espessa e volumosa que por minutos nos afastamos e não se consegue ver nada.

É neste clima de deserto que, já a mais de um mês, todos os sábados vamos ao Povoado.

No primeiro dia ao chegarmos lá, já estavam embaixo de dois pés de algoroba grandes, dois senhores nos esperando para uma prosa. A recepção que tivemos foi a mesma de quando chegamos para visitar algum parente mais chegado. Foi cheia de apertos de mãos, abraços e sorrisos. Estávamos entre amigos.

Também foi no primeiro dia que me veio à cabeça a pergunta, “como esse povo consegue viver em terras tão áridas e de difícil cultivo?”. Não tenho a resposta. Mas percebi que aquela comunidade, hoje um Povoado com centenas de residências, vive no seu mundo e feliz.

Me surpreendeu o som dos pássaros. Que a muito eu não ouvia na cidade. A presença de galos de campina (Paroaria dominicana), rolinha (Columbina picui), e pardais (Passer domesticus). Mas o canto das Maracanâs (Primolius maracanã) que me encantaram. Eram muitas. Elas sentavam nas arvores perto de onde estávamos. E enquanto a conversa comia solta, eu não parava de olhar aqueles pássaros e suas cores. Ainda há vida no raso. Há pessoas e pássaros que teimam em desafiar as mais duras condições de sobrevivência. Eles vivem em um mundo onde todos os dias comemoram a existência da vida, mesmo com tantas adversidades.

Ser Nordestinos é só para os fortes!

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