21.3.18

VAMOS FALAR DE RIO. VAMOS FALAR DE FALSA GUERRA ÀS DROGAS. VAMOS FALAR DE ARREGO. DE MILÍCIA. DE POLÍTICA. DE POLÍCIA... DE MARIELLE.


Ao ler o título deste pequeno texto, muita gente deve estar se perguntando do que se trata esse tal de arrego. Explico: arrego é a taxa semanal que Batalhões da PM cobram para o tráfico das favelas locais funcionarem livremente. E o que acontece quando os traficantes decidem não pagar o arrego? A polícia invade a favela. Matando. Não só traficantes, mas quem estiver pela frente. A multa pelo atraso do arrego é o sangue da favela. E como a mídia costuma noticiar esse tipo de operação? Como uma operação que visa combater o tráfico. E é assim que a população que mora fora da favela enxerga esse tipo de conflito. Só que isso não tem absolutamente nada a ver com combate ao tráfico, muito pelo contrário: é um confronto para controlar o tráfico. Falsa guerra.

Esticando um pouco a análise, tem mais uma coisa importante que a gente precisa compreender: no Rio, há várias facções criminosas, com estratégias e comportamentos diferentes. Algumas delas são amigas da polícia e evitam o confronto com policiais (uma dessas, inclusive, se chama “amigo dos amigos – ADA, o nome já diz tudo). São, basicamente, sócias da PM.

Há uma outra facção, o famoso Comando Vermelho (CV), que não gosta muito de negociar com a policia e prefere manter o domínio dos seus territórios na base do confronto, da guerra. Essa facção é historicamente mais hostil à negociação. Sendo assim, nas áreas de domínio do CV, costumam ocorrer frequentes confrontos com a PM. Percebam que esse tipo de confronto, entre Polícia e CV, não se dá porque a polícia está tentando neutralizar o tráfico, mas sim - repito - pelo controle do tráfico. Tem algumas peculiaridades nessas regiões que valem à pena serem citadas aqui: em muitos desses confrontos, a PM apreende armas, drogas e traficantes. Boa parte das armas e drogas são revendidas para facções amigas e uma pequena parte apresentada na delegacia para justificar a operação. Dizem que cada fuzil é revendido por mais de 50 mil Reais. E o que eles fazem com os traficantes presos? Muitas vezes, dependendo da relevância do criminoso, entram em contato com a facção e cobram uma espécie de resgate. Outras vezes, eles simplesmente matam o traficante e ficam com todo o ouro que o cara carrega consigo (policiais costumam chamar isso de prêmio de guerra). Mais um detalhe: por que que vocês acham que traficante anda com tanto ouro no corpo? Isso mesmo, para caso seja pego, consiga abrir uma negociação em troca do que carrega no corpo.

Além dos confrontos e negociatas acima, ainda há a guerra entre facções. uma guerra que é muito interessante para os grandes traficantes de arma e para os vendedores do varejo. Vocês já estão imaginando um pouco do que é a vida na favela, né? É, isso mesmo, um inferno.

Por fim, na última década, tivemos o surgimento de uma terceira facção para jogar mais gasolina no incêndio: as milícias.

E como é o funcionamento das milícias? Seria justo chamá-las de facções criminosas?

Respondendo à primeira questão, basicamente, são facções formada por policiais militares e civis, agentes penitenciários, bombeiros e ex-militares. Quanto à segunda questão, obviamente, são grupos criminosos que se formaram para disputar território com as tradicionais facções que comandam o tráfico de drogas. Acontece que as milícias são facções que vão para além do simples comércio de drogas. Eles transformam os territórios conquistados em verdadeiros Estados paralelos. Controlam e monopolizam a venda de água e gás nas regiões dominadas. Mandam no transporte coletivo ilegal. Detêm o monopólio do fornecimento de serviços de TV a cabo e internet. Cobram pesados impostos dos comerciantes e, por fim, aqui talvez um dos pontos menos explicitados pela grande mídia, formam currais eleitorais nas regiões que dominam. Isso quer dizer que só faz campanha eleitoral nas comunidades sob controle da milícia os políticos que possuem ligação com o crime organizado. Percebam a gravidade e a ameaça à democracia que essa facção nos traz. Inclusive, muitos dos parlamentares cariocas são eleitos por milicianos. Outros tantos no parlamento declaram apoio quase que explícito às milícias. Um exemplo de apoio parlamentar ao crime organizado é a atuação da família Bolsonaro: um dos integrantes do clã, o Deputado Estadual Flávio Bolsonaro, além de ter votado contra a CPI destinada a investigar o crime organizado por milicianos no Rio de Janeiro, chegou a defender, pasmem, a legalização das facções criminosas organizadas por milicianos. A situação é extremamente crítica e quem se coloca no caminho destes esquemas corre o risco de perder a própria vida. A democracia está sob ameaça.

A nossa Marielle ousou desmascarar todo o esquema acima. Foi uma guerreira que conhecia de perto tudo que está escrito no texto -- e muito mais. Uma mulher negra, cria da favela que, com muito esforço, se graduou em sociologia na PUC-RJ e se tornou Mestra em Administração Pública pela UFF. Lutou e estudou para transformar a vida da favela. Denunciou a falsa guerra. Não se calou. Foi eleita a quinta Vereadora mais votada da cidade. Foi a voz da favela. Uma voz que não irá se calar.

Marielle, iremos defender seu legado e preservar sua memória.

Por David Duccache.

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