29.8.17

Tá na internet: Eu falo desaforos para para coxinhas e esquerda-coxa.


Eu chuto canelas sim e falo desaforos para coxinhas e esquerda-coxa, mas tem algo que precisa ser dito.

Ninguém nasce com o pensamento pronto, enxergando o mundo e as questões em 360 graus. Eu já fui coxinha em muitos aspectos, sei o quanto é importante levar umas porradas pra acordar. 
Quando surgiu a questão das cotas raciais, por exemplo, pasmem, mas fiquei meio perdida na interpretação. Eu acreditava numa exclusão econômica, não racial. A porrada na cara que me fez acordar foi estar num hotel em Gramado e perceber que num país com predominância de pardos e negros, havia lá uma supremacia dos brancos, muitos loiros mesmo, de olhos claros... uma minoria de pardos e apenas uma professora negra com seus dois sobrinhos, crianças ainda e também negros.

Colei nela, fiz amizade e passei a andar junto. Numa ocasião, tinha duas hidros gigantes numa sala de banho. Chegamos as duas e entramos numa delas onde tinha aproximadamente 10 pessoas. Fiquei observando que aos poucos as pessoas foram saindo e logo estávamos apenas nós duas e uma menina de uns 6 anos de idade, branca. Olhei para a outra hidro e tinha lá umas 15 pessoas. A "temperatura" da nossa água é que parecia não agradar mesmo. E logo essa menina perguntou à minha amiga negra: "Por que vc não passa aquilo no rosto pra ficar bonita assim como ela? (apontou para uma foto na parede e para mim). A foto na parede era de uma propaganda das máscaras faciais para tratamento da pele, era uma máscara branca.

Quando os sobrinhos dela pulavam na piscina enorme, a piscina logo se esvaziava.

Passei a observar que existe um apartheid SIM no Brasil, sem avisos nas paredes, mas o negro raramente pode tomar água na torneira dos brancos, porque há um muro invisível que os impede de fazer o percurso que os brancos pobres (como eu fui) tem a chance de atravessar para chegar nos hotéis, restaurantes e condomínios que acabam sendo redutos de brancos.

Agora mesmo vi num post da minha filha um jovem contestando a denúncia que ela faz sobre a substituição de papéis dos negros e orientais por brancos no cinema. O rapaz diz cheio de arrogância: "Nunca vi ninguém reclamando quando um negro faz um papel nos filmes". Ele não tem o menor senso de "proporção".

Descobri que é preciso alçar os negros (seja como for) para o patamar de cima para que a presença deles se torne normal e a convivência cotidiana desperte a admiração, o respeito, a normalidade. É preciso ter crianças cujas vidas são salvas por médicos negros, é preciso que eles deixem de ser exceção nas hidro e piscinas.

O mundo está repleto de "socos na cara" para os que olham o mundo ao redor. Quem não consegue fazer esta observação, precisa levar "soco nos brios" de alguma forma, então a gente soca pra ver se o sujeito se envergonha do mesmo modo como me senti envergonhada de fazer parte do mundo branco naqueles poucos dias em que fiquei colada com a professora negra no hotel.

Defesa de privatizações, orgulho de ser de direita, defesa de perseguição do judiciário, condenação a programas sociais, crença na crítica apressada como direito de expressão ou democracia... Ninguém nasce com visão de 360 graus. Mas não vou aplaudir nem ignorar quem se sente confortável na visão de 30 graus e quer arrastar o país todo para os 30 ou 15 graus. 
Uma nação não avança sem que avance o pensamento dos seus cidadãos.

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