18.6.17

Dilma e sua revolução! (Por Ângelo Cavalcante)

Dilma, minha cara Dilma... Votei em você por quatro vezes; sempre ia satisfeito falando pra mim mesmo: "que coisa boa será ter uma mulher presidindo esse país de 'machos, coronéis e safadões'. Uma nova cultura será feita pela política!". Sabia que isso teria impacto na cultura, no cotidiano e nos valores.

Eu só não sabia e, de fato, não sabia, é que o impacto seria tão grande! Jamai poderia imaginar que o fato de termos uma mulher no governo causaria o tremor e que, conforme se verifica, segue causando. 

Olha... Você é o principal fato político da história brasileira; nada, absolutamente nada se compara a você. Nem as lutas por independência, a vinda da família real, o invento da república e que ao fim não tem nada de republicana, os golpes em série e que o país sofreu e segue sofrendo, a reviravolta de 1930, os imprevisíveis e modernosos governos de Getúlio Vargas, a retomada da democracia em 1985 e nem mesmo a eleição do presidente operário tem o seu tamanho, efeito e profundidade.

Ocorre que eleger mulher é "problema" em qualquer lugar do mundo agora, termos elegido uma mulher, ex-guerrilheira, acolhida por ninguém menos que certo Leonel Brizola, divorciada e admitida pelo Partido dos Trabalhadores, aceitemos isso ou não, mas de muitas lutas e conquistas democráticas e; em um dos países mais atrasados do mundo do ponto de vista cultural onde a misoginia é um corriqueiro presente do mais simplório e diminuto gesto do cotidiano até às concepções das grandes políticas de desenvolvimento nacional; onde o femínicídio avança feroz e com ares de normalidade e; onde o patriarcado/neopatriarcado tem a capacidade de se reinventar pelas largas brechas de nossa sociabilidade classista, é ação-símbolo que, por si, sacudiu as estruturas da velhaca cultura política brasileira.  

Todos sabemos que você, Dilma... É meio desajeitada, tem fala atravessada e é até meio confusa mas, olha... mesmo fora do poder, segue revolucionando o país e desta feita, obriga toda a história a ser recontada e mais até, historiadores terão que inventar novas categorias analíticas para entenderem o que foi a passagem da primeira mulher no comando do país; mesmo com os muitos erros administrativos, com os cacoetes e com o impeachment.

Olha a situação do congresso? Veja essa câmara dos deputados? Esse senado? Um covil pestilento de bandidos e desalmados. Atravessemos a praça... Olha a bandalheira e que está esse STF? Miremos na situação vexaminosa dos ditos magistrados? E os partidos do país? Se tornaram uma pletora de insignificâncias, de placebos em forma de siglas, cores e cantilenas. Isso apenas!

Já sabíamos da perversão de tudo isso mas você... Você nos mostrou com clareza cristalina a qualidade da república que temos; de sua democracia mequetrefe e às avessas; das instituições que lhe garante substância e cotidiano.

Dilma, você revelou as chagas mais fundas e odorentas deste país e já sabemos que como está não dá para ficar porque é preciso reformar o país, suas instituições, a relação destas eminências com a população, sobretudo, com o povo pobre; com destaque especial às forças de segurança, useiras e vezeiras na arte de reprimir, maltratar e matar gente do povo.

Mesmo fora... Sua onda gigante segue avançando sobre figurões da política, do meio empresarial e da mídia brasileira. Máscaras caem, discursos são emudecidos e convicções se desvanecem. Vejamos os nevrálgicos casos de Aécio Neves, José Serra, Paulo Skaff, Fernando Henrique Cardoso e outros tantos.

E o mar de lama segue tormentoso, revolto e engolindo todos os que suicidamente, ousaram abrir mão de valores fundamentais como ética, honra, honestidade, trabalho e dignidade.

Até entre bons amigos da análise politica ouço o dizer, equivocado a meu juízo, de que a polícia federal não poderia ter tido tanta autonomia; que um ministério público com tanta atuação seria algo desnecessário; que órgãos de fiscalização mais modernos, amplos e profundos causaria problemas para o próprio PT, não por acaso, vosso partido.

Foram essas grandes asas, esses grandes olhos e esse olfato especial e que seu governo conferiu para esses órgãos de fiscalização, investigação e operação que tem revirado o país de uma ponta a outra, de lado a outro. Do Acre ao Rio Grande do Sul, do Maranhão ao Mato Grosso do Sul, do Piauí a Santa Catarina... O país treme, purga, trêmula mas... Ao fim, surgirá lá mais na frente, um país melhor, mais aperfeiçoado e mais democratizado!

É uma revolução! Embora não tratada como tal mas é revolução. Meu receio no entanto, é que nesta barafunda de acontecimentos, os movimentos sociais, a esquerda e seus pensadores não consigam fincar cunhas nos vãos e contradições deste movimento.

De qualquer modo, a Dilma, das gagueiras, das confusões e de evidente timidez desencadeou algo completamente novo para o país e que não sabemos dizer com maior precisão o que é mas que será... Que a febre continue! Chegará a temo no momento certo!

Ângelo Cavalcante - economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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