26.5.16

O sono do inocente.

O sono do inocente.

Já era tarde da noite quando ele resolveu deitar. Seu corpo cansado de um dia de trabalho estafante. Passou nove horas na pedreira produzindo britas com a marreta em sua mão. Calejadas e feridas. Ele tinha o olho esquerdo com a visão quase que perdida. Um dia uma lasca de pedra atingiu seu olho e o deixou quase cego.
Ele deitou em seu sua cama com seu colchão de palha. Já tentou comprar outro, mas nunca conseguiu juntar o dinheiro necessário. Olhou de lado, como se buscasse alguém. Sua esposa o abandonou. Não aguentou a vida sofrida que levava. Puxou o lençol feito de retalhos de tecidos que dava um colorido naquele mundo cinza. Percebeu novamente que estava só e deitou a sua cabeça no travesseiro. Um conforto nas noites de sono profundo.
Apagou a luz. Mesmo deitado, rezou pedindo a Deus pedindo dias melhores. Fez o sinal da cruz e entes de adormecer, ficou durante algum tempo olhando para o teto do quarto. Olhava uma fresta de luz que penetrava por entre as telhas. Vinha do poste que fica em frente à sua casa. Adormeceu!
E em menos de cinco minutos, pechou o lençol para cobrir até a cabeça. Só parte do rosto ficou descoberto. Segundos depois, virou o rosto para o outro lado. Estava incomodado. Seu sono estava sendo interrompido. De repente deu um tapa em seu próprio rosto. E outro. E outro.
Levantou e acendeu a luz. Ficou olhando de um lado para o outro. Ele buscava algo que não se via. Foi até o canto do quarto. Olhou para um ponto especifico. Fez gestos com as mãos, como se estivesse tentando matar algo. Parou. Olhou para as roupas penduradas em um fio de náilon que ia de um lado a outro do quarto. Era o seu guarda-roupas. Foi até elas, bateu com as mãos, mas nada acontecia. Percebendo que nada encontrará, voltou a cama e deitou novamente.
Nem tinha fechado os olhos e novamente parecia incomodado com algo. Já tinha se passado muito tempo. E tempo de sono perdido para ele era garantia de sofrimento no dia seguinte. A noite mal dormida resultaria em maior cansaço e sofrimento no sol escaldante do sertão nordestino. E o resultado seria a menor produção de brita e menos dinheiro no final da semana. Quando o patrão fazia os pagamentos depois de somar as carradas que foram produzidas.
Deitou e dessa vez não cobriu o corpo. Ficou só de cueca. Parecia prono para uma briga imaginaria. Com um opositor invisível. Olhos abertos, à espreita da chegada de algo. Esperou por alguns minutos e nada aconteceu dessa vez. Puxou novamente o lençol e se cobriu. No rosto a certeza de que o sono viria e descansaria seu corpo.
Sua cabeça mexeu depois de uns dois minutos. Ao longe se ouviu o barulho de um tapa no rosto. Levantou com raiva, foi até o banheiro. Abriu a torneira. Olhou para as mãos. Deteve o olhar na palma da mão esquerda. Em seguida a colocou na água que jorrava e exclamou: morra miserá, vai agoniar a puta que te pariu com esse zumbido do caralho em meu ouvido. Vai agora fazer barulho no inferno desgraça. Agora posso dormir em paz!
Lavou as mãos. Enxugou na pequena toalha que estava no braço da cadeira na sala. Retornou a cama e teve a certeza de que anoite, agora, seria de sono profundo. Ele matou a muriçoca que o incomodará até ele perder a paciência.
Deitado, se enrolou novamente e deitou a cabeça. O sono chegou. Amanhã o dia seria de trabalho e sem cansaço. Era tudo o que ele desejava a cada manhã.
Luzes apagadas. Som de carro distante. Nada mais o incomodava. De repente, ele puxa o lençol e cobre novamente a cabeça para em seguida virar de um lado para o outro...


Dimas Roque.