29.1.16

O esgotamento do Carnaval em Salvador.

A "marchinha de carnaval" mais usada esse ano para explicar o encalhe de abadás para o carnaval de Salvador é a "crise no Brasil". Com isso escondem a crise do carnaval de Salvador que tem como fator principal o estrangulamento da sua identidade popular. Tem até um cantor que ao se desfazer da banda famosa (por processos trabalhistas) e partir para carreira solo, agora diz que banda não retorna por causa da crise (...). 
Abadás dos(as) grandes artistas que outrora esgotavam suas vendas em novembro ou dezembro, hoje estão encalhados.
A crise no país e no mundo influencia, mas a crise no carnaval de Salvador não é a que se abateu em 2015 em todo o país e sim uma crise que vem crescendo há muito tempo sob a égide do grande empresariado do entretenimento em conluio com os poderes público municipal e estadual e parte da mídia.
O modelo de carnaval imposto em Salvador e bem sucedido por duas décadas (1980,1990) está esgotado. Abadás, cordas, cordeiros, privatização do espaço público, das ruas, praças, etc. É esta lógica que algum tempo já dava sinais de cansaço. Contudo, isto não foi suficiente para o empresariado local que, ao contrário do que já mostrava tais sinais, conseguiram radicalizar naquilo que mais afasta o nosso carnaval do seu caráter popular, espontâneo e democrático, apostando na segregação da camarotização da nossa maior manifestação cultural. O hedonismo e a miopia dos que sempre lucraram foi um dos fatores fundamentais pra a crise de identidade que estamos passando e isso precisa ser dito tambem.

"Tomara que esta ano eu encontre de novo
no meio da rua, no meio do povo
Mortalha encharcada de cerveja até o pé
e a boca lambuzada de acarajé..."
Walter Queiroz  

Dos versos de Walter Queiroz que remetem à mistura e ao encontro até as músicas atuais de ostentação que falam de camarotes, uísques, carrões, status e segregações diversas, existiu uma progressiva e corrosiva construção de um carnaval em que o povo é secundário. Todos os símbolos contidos na festa tem hoje (mais do que nunca) a etiqueta das diferenças e isso não foi por acaso.
Ainda sim, a festa passa hoje por transformações mesmo com o cerco do poder público às manifestações espontâneas alternativas ao carnaval da indústria.
O empresariado tem sua importância, mas precisa entender para além do lucro de um ano de carnaval; maturidade é para poucos...

Fernando Monteiro.

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