4.3.15

“A VALSA DE NELSON RODRIGUES” ESTREIA NESTE SÁBADO, 07.

Ao completar nove anos de existência no Vale do São Francisco, a Trup Errante mergulha no universo do mais polêmico autor do Teatro Brasileiro, Nelson Rodrigues. Thom Galiano, diretor artístico da Trup, fala-nos sobre suas motivações para essa montagem:
“Esse é meu terceiro encontro com a Valsa nº 6, monólogo escrito por Nelson Rodrigues em 1951. Eis uma das vantagens do teatro: a possibilidade de recriar uma obra, sob novas perspectivas. Nos dois primeiros encontros estive imerso em processos pedagógicos, o primeiro foi no Núcleo de Teatro do SESC Petrolina/PE em 2008, onde trouxemos o texto e a cena compartilhada por 12 alunas/atrizes, em um delirante caos, somente possível em uma única apresentação. Apresentada apenas uma vez talvez por ter contrariado a vontade do autor:
‘Achei, sempre, que um dos problemas práticos do teatro é o do excesso de personagens. Entendo, no caso, por excesso, mais de uma. Pensei, por isso, há muito tempo, na possibilidade de tal simplificação e despojamento, que um espetáculo se concentrasse num único intérprete. Um intérprete múltiplo, síntese não só da parte humana como do próprio décor e dos outros valores da encenação. Uma pessoa individuada – substancialmente ela própria – e ao mesmo tempo uma cidade inteira, nos seus ambientes, sua feição psicológica e humana.’ (NELSON RODRIGUES, escritor da peça)
O segundo encontro foi no curso de direção teatral da Escola de Teatro da UFBA, ainda em 2008, durante a disciplina de montagem, que foi ministrada pelo Profº Paulo Cunha que já havia encenado o texto em (1988) Salvador/BA. Quem encarnou Sônia foi minha irmã, Naiara Maria, numa grande coincidência com o fato de que a peça foi escrita para a irmã de Nelson e estreada por ela, Dulce Rodrigues.
Nas duas experiências tive a certeza da impossibilidade de passar por Nelson incólume, talvez pela exigência de um mergulho no desagradável da vida para revelar o mais genuíno impulso humano – o amor.
Essa mística sobre o universo ‘rodrigu0065ano’ me leva a acreditar numa atração que seus textos e suas 17 peças exalam no público e nos artistas. Uma persistência ao desejo da investigação de suas palavras. Segundo o crítico de teatro Sábato Magaldi,
‘O primeiro mérito de Valsa n° 6 vem de Nelson ter criado um monólogo absolutamente teatral. Aboliram-se os métodos prosaicos e habituais da forma. O autor não se serviu de espetaculosidade ou complicações aleatórias para atingir o objetivo. Não importam a luz, o cenário, o tempo e o espaço. A peça repousa sobre a palavra, trabalhada dramaticamente. Resultou um poema dramático, em que a conclusão do monólogo é poesia. Superou-se o lado discursivo, racional e lógico, para se viajar no território da criação livre, do imponderável e da pureza.’ (SÁBATO MAGALDI, crítico de teatro)
Estamos agora, eu e Raphaela de Paula – uma das 12 alunas/atrizes do meu primeiro encontro –, debruçados sobre Sônia, sonhando com ela, com seus assombros e ecos que reverberam nos nossos dias. Qual o sentido dos ritos de passagem da menina à mulher em nossa sociedade pós-tudo?
‘A juventude, sobretudo na fronteira entre meninice e a adolescência, é de integral tragicidade. Nunca uma criatura é tão trágica como nessa fase de transição.’ (NELSON RODRIGUES, escritor da peça)
Raphaela, por sua vez, teve outros encontros com a obra ‘rodrigueana’: participou junto a outras alunas/atrizes de uma pesquisa no Programa de Iniciação Científica (PIBIC) na mesma Escola de Teatro da UFBA, sob a orientação da Profª Dr. Hebe Alves, que no ano 2001 também dirigiu uma montagem da Valsa n° 6, que ganhou a acunha de ‘Insônia’.
‘Com grande frescor e doce ingenuidade, Sônia escorre ora para menina, ora para a moça. Surge o pavor da loucura, típica entre os sintomas da transição. A revolta contra a operação das amígdalas, símbolo de um complexo de castração e terror da experiência sexual.’ (SÁBATO MAGALDI, crítico de teatro)
Logo depois, Raphaela encontrou outra menina de Nelson, a personagem Cecília da peça ‘Bonitinha Mas Ordinária’, na formatura do seu curso de interpretação teatral com direção de Luiz Marfuz.
Assim-assim, nós, da Trup Errante, fomos aos poucos sendo embebidos pela mística do universo ‘rodrigueano’. Em 2012, numa leitura dramatizada no Ciclo de Leituras de Mesa no SESC Petrolina, descobrimos o sabor e a comicidade do texto ‘Os Sete Gatinhos’. A ‘Valsa Nº6’ traz à tona questões delicadas, como a transição entre a infância e a fase adulta, onde uma menina reconstrói o seu próprio assassinato, questões essas que surpreenderam a crítica teatral, Dinah Silveira de Queiroz, que achou inacreditável que essa peça ‘não tivesse sido escrita por uma mulher’. Esse mergulho, no feminino e nas memórias, são temas recorrentes nas montagens da Trup Errante e, agora, em comemoração aos nossos nove anos de existência, marca um novo encontro com Nelson em ‘A Valsa de Nelson Rodrigues.’”

SERVIÇO
O que é? A Valsa de Nelson Rodrigues (TEATRO)
Onde acontece? Teatro Dona Amélia
Quando? Dias 07, 08, 14 e 15 de março (sábados e domingos), às 20 horas.
Quanto custa? Ingressos limitados, ao preço de R$20 inteira e R$10 meia entrada.

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