11.2.15

Adalberto Coxinha das Neves.

Adalberto Coxinha das Neves
Anos atrás conheci um grande amigo, o Adalberto. Morávamos na mesma rua e estudávamos na mesma escola. Vizinhos de porta. Os anos se passaram e Adalberto cresceu, assim como eu. Hoje, ele é um cara super legal. Um cara descolado, com ideias super “prafrentex”, inovadoras. Ele vai à missa, é um homem de bem, de família. Um exemplo mesmo. Ele não é racista, mas troca de calçada quando vê um negro caminhando em sua direção. Não odeia gays, até têm amigos que são. Seus filhos não serão gays. Seus pais são gays, e de forma incongruente, segundo o próprio, ele “deu certo”.
Ele é contra a corrupção, e mostra-se indignado ante qualquer desvio de verba pública. Vocifera. Adalberto é um democrata, desde que o partido dele esteja no poder, do contrário, segue sendo um democrata, mas golpista, o que na visão dele é a mesma coisa. 
Certa vez, Adalberto passou fome: o motoboy demorou a entregar o seu barquinho de sushi. Claro, o trânsito estava infernal, pois desde 2003 não se pode mais transitar pelas grandes metrópoles; muitos automóveis. “Até pedreiro tem carro”, diz o Adalberto. 

Pra se sentir bem, em dia, com os amigos, ele costuma ir à baladas e coisas do tipo. Veste Gucci, banha-se com Dior. Seu Chow Chow vai à creche e come sucrilhos, um mimo só! Adalberto é fã do David Guetta, e não perde nenhuma rave. Ele fuma maconha o dia inteiro, mas vota na Ana Amélia Lemos. Ele vê na maconha a sua válvula de escape, mas odeia qualquer ideal progressista e de esquerda. Quer a legalização da maconha. Ele gosta de fumar coisa ruim, pagando caro e, assistir de camarote a morte dos negrinhos da favela, afinal, estes merecem estar onde estão. A meritocracia, um dia, há de colocá-los num lugar melhor, mesmo sem saber quando. 

O betinho, como é conhecido pelos mais íntimos, é contra o aborto, mas já mandou abortar três filhos. Não seriam legítimos, pois as crianças seriam, digamos, “bastardas”, já que as mães destes não passavam de... Prostitutas. 

Adalberto odeia o PT. Em sua mente fértil, a corrupção é fato novo, o tal PT a trouxe. O Brasil era muito melhor sem este partido. Sempre fora. Atualmente, ele não mais encontra empregadas domésticas pra limpar o seu quarto. Acabaram-se as festas de fim de semana, pois se cansou de limpar sozinho toda a bagunça.
 
Adalberto vai à marcha do dia 15 de março pedir o “impitiman” de Dilma Rousseff. Ele não aguenta ver a Petrobrás neste caótico estado. Ele anseia por uma estatal mais competitiva, mais “cool”, mais mercantil, mais estadunidense. Ah, Adalberto é nacionalista, é um legítimo brasileiro... Dos Estados Unidos do Brasil, como era em 1967, idos do seu falecido vovô, um partidário da ARENA; aquilo que era partido, aquilo que era, de fato, democracia. Não esta ditadura bolivariana-lulo-comuna-dilmista. Ele quer o impeachment, pois, como todo menino mimado, não sabe perder uma “briga”. O seu salvador da Pátria, Aécio, perdeu o pleito, coitado. Lembro-me de quando jogávamos videogame, ainda adolescentes, e eu o vencia; meu bom deus, ele saía chorando do quarto e pedia socorro a sua zelosa mamãe. Parece que não mudou em nada. Adalberto acredita no futuro da nação com o Michel Temer de Presidente, e o Eduardo Cunha de Vice-Presidente. Acredito que ele não saiba que o seu ídolo, Aécio, não será o novo presidente.
Passado alguns anos, a empresa de seu pai não andava bem, e o patriarca teve de pedir falência. O prodígio, então, teve de abandonar o curso de medicina. Mais tarde, adentrou novamente, mas desta vez pelo ENEM. Acabou formando-se em medicina. Hoje, Adalberto está na Inglaterra fazendo mestrado pelo programa federal Ciência sem Fronteiras, ganhando uns dois mil e quinhentos euros por mês. Suas postagens, diuturnamente, clamam pela saída da Dilma.
A última vez que o vi, foi na fila do Cinemark, portando uma carteira falsa de estudante pra pagar meia entrada. Esse é o meu amigo Adalberto.
Adalberto é um cara legal. Ele só quer o melhor para o Brazil.
Crônica do escritor Fernando Moura.

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