8.4.13

Nada de adeus, Renzo! (Emiliano José)


Você alimentava um sonho dourado, Renzo: semear em outras terras, viver entre os pobres, sentir as dores dos que tinham sede e fome de justiça. Sua Florença, beleza renascentista, monumento da humanidade, não lhe bastava. Queria o mundo, vasto mundo, que reclamava o Evangelho. A primeira conversão com os operários fiorentinos fora um empurrão: assimilou a diversidade da humanidade. Existia compaixão nos que não viviam a crença cristã, até nos comunistas, como nos trabalhadores da Italgas. Passou 16 anos nessa luta para seguir estrada afora, desde que se tornara sacerdote, em 1949.

Chorou, eu sei, no navio que o trazia para o Brasil, em 1965. Chorou muito por deixar Florença e seus amigos, sua vida até ali, tantos hábitos. E deixar Ethel, a mãe, que nem quis estar presente quando partiu, tão partido estava o coração dela por ver o filho mergulhar num mundo desconhecido. No navio, as lágrimas vinham junto com as recordações de uma vida inteira, e o choro era uma catarse. Não abalava sua escolha. Na vida, escolhas nunca são fáceis, sempre há uma contabilidade de perdas e ganhos.

Aliás, você nem sabia se haveria ganhos. Apenas partia, a certeza de que devia seguir mundo afora, entre os desvalidos, para divulgar o Evangelho. Quem quiser que me siga, pensava em Cristo. Não havia meias medidas na escolha. O Brasil o surpreende, sei, porque me contou: no Alto do Peru, em Salvador, o povo lotou a igreja na sua primeira sexta-feira santa, uma elegia ao sofrimento; e quase o deixa falando sozinho no domingo de Páscoa, momento da ressurreição de Cristo. Ora, pensou, maior é a alegria pela volta de Cristo do que a tristeza por sua morte. 

E o Brasil surpreendeu você, também, pela pobreza. Que era extrema, ampla. Calçou as sandálias de apóstolo, arregaçou as mangas, e pôs-se a trabalhar entre os pobres. De todo modo que pudesse, queria aliviar as dores dos que clamavam por pão, por casa, por uma vida digna. Em 1971, os desabamentos causados pelas chuvas mataram mais de 150 pessoas em Salvador. Você orientou a invasão de escolas pelos moradores do Bom Juá e redondezas, dos bairros mais atingidos. Foi áspero, duro numa audiência com o governador. Em 1976, quando moradores do Marotinho foram desalojados pela polícia, lá estava você, confrontando-se com policiais.

E depois veio a mais bela, rica, frutífera experiência de sua vida. Não é assim que você se refere ao falar da peregrinação que fez entre as prisões políticas brasileiras, que iniciou em 1975 e só terminou quando saiu o último preso político do País? Nós, Jorge Felippi, Bruno, Henrique e eu ouvimos você dizer que essa experiência o tornou o padre mais feliz do mundo – essa afirmação foi feita em maio de 2012, em sua casa, ali pertinho do Duomo. Seus olhos explodiam de alegria ao dizer isso, e nós, que o filmávamos, não resistimos e o aplaudimos. Seu coração, eu sei, não se continha de tanta felicidade por ser solidário com os que sofriam as dores do cárcere, os que curavam as feridas da tortura e, assim mesmo mantinham a esperança de um dia ver o País liberto de tanto terror. Sua segunda conversão. Estive preso e me visitastes...   
   
Nós, muitos nem tão crentes assim, mais íntimos da esperança que da fé, veja só a ironia, fomos encontrar um santo. Se é possível pensar em homens santos, você é um deles. Com sua esfuziante alegria, com suas broncas, com os tapas carinhosos com que nos regalava, com a sua inesgotável capacidade de amar, com a coragem que demonstrou ao entrar nas catacumbas, ao pensar as feridas nossas, dos familiares, das crianças torturadas, ao percorrer o Brasil nessa peleja, ao viajar pela Europa em favor da anistia, foi revelando a sua santidade – um homem, isso, um homem que soube entregar-se à humanidade, sem nunca querer  nada em troca, nem a conversão à crença que você professou com tanto ardor e fé. 
 
Nos avisaram que você partiu dia 25 de março. O filme está pronto e ficou muito bonito, sabemos que perguntou a Sandra sobre ele. Nada de adeus, você continua entre nós. O filme o torna sempre presente e sua obra, sua vida, o tanto que semeou, o eternizam. Você sabe disso. Terno, eterno Renzo!

Por Emiliano José: Jornalista, escritor, ex-preso político e autor de “As asas invisíveis do padre Renzo”. Texto publicado originalmente na edição desta segunda-feira, 08, no jornal A Tarde.

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