1.4.12

Das coisas que eu fiz: O ano era 1980, em plena ditadura militar.

A idéia era essa.
Muitos eram aqueles que participavam do grupo jovem “reticências”, ligado a Igreja Católica na cidade de Paulo Afonso na Bahia. Era uma segunda-feira, véspera de 01 de abril. Naqueles dias o clima era de preocupação com a situação política no Brasil. Recebíamos notícias de prisões e assassinatos de pessoas que, por discordarem da política dos generais que estavam no poder, simplesmente eram perseguidas. Já naqueles dias, aquele grupo de jovens que todos os sábados se reuniám na Escola Casa da Criança I, começaram a perceber que não podiam simplesmente rezar e fechar os olhos para o que acontecia com os que lutavam.

Nossas armas eram o pensamento, a verbalização deles nos grupo e a execução de ações que demonstrassem a nossa insatisfação diante de tudo aquilo que discordávamos.

Foi quando tivemos a idéia de protestar contra o Golpe Militar naquele primeiro de abril. Nós buscamos algo que expressasse a nossa indignação contra os militares. Pensamos em fazer pichações na cidade, mas o risco era muito grande. Alguém sugeriu que devíamos fazer um ato durante o dia na Avenida Getúlio Vargas, mas essa proposta foi derrubada logo que apresentada. Eu me lembrei que tinha comprado uma camiseta em Salvador quando estive lá. Ela tinha um mapa do Brasil onde toda a Amazônia era representada com a bandeira Americana. Era um protesto contra o Projeto Jari. E foi ai que propus imprimirmos centenas de bandeiras brasileiras, mas pintadas com as cores e formato americano. E aqueles amigos toparam.

A primeira etapa da ação era convencer o então amigo e Padre Mário. Nós só conseguiríamos colocar em prática se ele autorizasse a utilização do mimeógrafo que ficava na cúria diocesana. Ele olhou para nós e disse, “se descobrirem isso, vai me trazer muitos problemas”, Era verdade! Mas prometemos que tudo seria feito durante a noite e madrugada. Então assim ficou combinado. Enquanto o “Cachacinha” imprima as folhas, nós pintávamos com tinta guache cada uma. Ate hoje me lembro do cheiro do álcool entrando pelo meu nariz.

Durante a madrugada, Padre Mário passou por lá para saber se tava tudo dando certo. Fiquei com a impressão de que ele queria era estar ali conosco, participando daquele ato, infantil, mas que representava muito para todos nós, naqueles dias. E enquanto estávamos na Curia, preparando tudo, uns soldados da Companhia do Exército, que fica ao lado, passaram por diversas vezes em frente. Era um fechar janelas e abrir janelas durante a madrugada. Nós, revolucionários, nos divertíamos muito com aquilo. Era a época dos sonhos de libertar o Brasil das garras da ditadura. E isto só veio acontecer muitos anos depois.

Quando terminamos de aprontar muitas folhas de papel oficio, com o desenho da bandeira brasileira, mas pintada como se fosse a Americana, saímos pelas ruas do centro da cidade a colar nas paredes. Era nosso ato de rebeldia.

Mas não duraria meia hora coladas. Enquanto estávamos colocando outras, fomos avisados de que um Jipe do exército estava passando com militares em seu interior. Paramos então de colar e ficamos esperando para ver o que acontecia. Desciam três pessoas do automóvel e arrancavam tudo o que tínhamos feito durante toda a noite. Foi uma tristeza muito grande entre todos. Nosso trabalho, nosso protesto não seria visto por ninguém. Então pegamos o que sobrou e colocamos debaixo das portas das lojas do comércio. Na manhã seguinte soubemos que o e exército foi avisado e saiu recolhendo tudo.

Ate hoje eu acho, que só os que participaram daquele protesto e o pessoal do exército que retirou tudo das paredes e recolheu nas lojas, ficou sabendo do protesto. Mas era o que podíamos fazer naqueles dias contra a Ditadura Militar.

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